sábado, janeiro 29, 2011

Da (des)ilusão eleitoral


Há, de facto, um divórcio entre os eleitores e a classe política, no seu todo. E este afastamento não se aplica somente às classes dirigentes que, ao longo dos anos contribuíram para um manifesto desgoverno do país e, sobretudo, para o agudizar desse desencanto que se sente e se pressente no país profundo, nas conversas de café, na rua, no pulsar do país real que se debate com as questões verdadeiramente cruciais!
Durante décadas, assistimos, mais ou menos revoltados, mais ou menos desencantados a um desnorte absoluto por parte das classes dirigentes que colocavam os seus próprios interesses na linha da frente; que malbaratavam o erário público; que depressa se esqueciam dos problemas do país real em função da sua ambição desmedida e que criaram exércitos de "boys" e carreiristas, que se vão alternando nas cadeiras do poder.
Esta última campanha das Presidenciais foi absolutamente confrangedora e despertou mais bocejos do que interesse. Os intervenientes principais destas eleições envolveram-se numa espécie de "bate-boca" deploravelmente terceiro-mundista e os dias de campanham sucediam-se ao sabor de mais um escândalo, de mais uma revelação que só serviam para alimentar uma imprensa cada vez mais voraz de sensacionalismo e de folhetins do que propriamente de conteúdos edificantes e que interessam aos cidadãos e ao país real, asfixiado por uma crise que parece eterna.
Adivinhava-se, assim, uma taxa de abstenção muito elevada que desta vez acabou mesmo por bater um recorde histórico!
Há um alheamento cada vez maior dos eleitores e creio que, em contexto de crise e de recessão, este fosso entre eleitores e classe política (no seu todo) será cada vez mais denso, podendo mesmo criar-se um abismo imenso. É necessário discutir as razões que levam a esta total indiferença, mais grave ainda, a esta tremenda desilusão que assiste a 53% do eleitorado aquando do "dia D"!
Há uma obra de Saramago - Ensaio sobre a Lucidez - que trata precisamente deste divórcio entre o indivíduo e o poder, entre governados e governantes. Num acto eleitoral, houve 70% de votos em branco, reconhecidamente o voto de protesto por excelência e o governo desse país imaginário (ou não) recorreu à subjugação pela força. Será este o último recurso, o verdadeiro acto de lucidez? Andarão os políticos completamente cegos às reais preocupações dos indivíduos que os elegem?
E se um dia a ficção se tornasse realidade? Como se sabe, a vida, por vezes, imita a arte...

1 comentário:

Zé Rodrigues disse...

Ana,

Eu sei que o seu texto refere-se a realidade de Portugal, mas muitas questões que você levanta nele estão presentes na cena política do Brasil, também. Principalmente, o "divórcio entre os eleitores e a classe política". Aqui, no Rio de Janeiro, a cidade irá receber a copa de futebol de 2014 e as olimpíadas de 2016. É absurda as inúmeras violações de direitos humanos que estão acontecendo para "preparar a cidade" para os megaeventos esportivos: comunidades destruidas, familias retiradas de suas casas da noite para o dia etc. A mídia e os políticos aplaudem a transformação de seres humanos em lixo, enquanto grande parte do povo... apenas espera, ansiosos, a "festa olímpica"...

E tal como escrito pelo querido Saramago em seu livro que vc cita, quem sabe um dia a vida imite a arte.

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