segunda-feira, março 19, 2012

Memórias...de Salazar?


Na passada semana, fomos assaltados por uma notícia que, a meu ver, não está a ser alvo de uma discussão profunda que urge levar a cabo, sob pena de se tornar mero episódio caricatural e cair, assim, no esquecimento.
É certo que, na espuma dos dias, e por entre o habitual sensacionalismo a que os noticiários em Portugal nos habituaram, estas notícias são completamente relegadas para segundo plano. No entanto, é importante analisar os factos, ir ao âmago da questão e tentar perceber como se pode chegar a este ponto preocupante.
Segundo a notícia avançada na imprensa nacional, a autarquia de Santa Comba Dão, a mesma que há alguns anos havia anunciado a construção de um Museu dedicado a Salazar, proclamava agora o lançamento de uma marca turística que visava dinamizar e impulsionar a economia local, com base na figura do ditador e que dentro dessa estratégia se incluía a comercialização de um vinho com o delirante nome de "Memórias de Salazar"!
Gostaria de fazer um pequeno aparte: trabalho precisamente na área da promoção turística e o objectivo diário deste métier consiste em veicular o melhor do território, sob um ponto de vista atractivo, apelativo e, sobretudo, positivo!
Não consigo, assim, conceber como se poderá fazer promoção de uma região com base na figura tutelar de um ditador que arrastou o país para um longo Inverno de 48 anos; que perseguiu, que torturou, que calou os oponentes ao regime que pugnavam pela democracia, pela liberdade e pelo acesso à formação e à educação; que comprometeu uma geração numa alucinada guerra colonial; que acreditava numa lógica de "fado, futebol e Fátima", de pão e circo para o povo analfabeto, miserável e descalço.
Estamos perante um perigoso e preocupante caso de revisionismo histórico, que pretende fazer tábua rasa de um passado sangrento que jamais deveria ser motivo de orgulho, muito menos de cartaz turístico! A autarquia defende que essa avaliação deverá ser feita por quem de direito, pelos historiadores, e que o que se procura com o lançamento desta marca, já registada, é atrair turistas e, mais grave ainda, pessoas que sentem uma "ligação" a Salazar!
Não é possível anunciar o lançamento deste sombrio produto turístico, dissociando-o da memória histórica e desse exército de vítimas do Estado Novo. Como reagirão as famílias das vítimas do salazarismo? Como é possível apagar a memória e fazer renascer das cinzas este fantasma omnipresente?
Ainda que seja um episódio muito específico - e esperemos que pontual! -,adivinha-se uma alarmante tendência para branquear a História e uma tentativa de a reescrever por linhas bastante tortas! Outro exemplo: aquele discurso de saudosismo que suspira pela rectidão do ditador e que acredita que o seu regresso seria a solução para os males actuais.
A democracia padece de muitas enfermidades, como se tem constatado por toda a Europa, em que governos são empossados em gabinetes, à revelia do sufrágio dos cidadãos, mas tal como dizia Churchill é "o menor dos males"! Faz-nos pensar...

domingo, março 18, 2012

Do tempo que faz e do tempo que passa


"O fabuloso destino de Amélie Poulain", um dos filmes que mais me marcou até hoje. Amélie, provavelmente a personagem feminina mais terna, mais completa, mais poética de sempre. A propósito da chuva abençoada (ou como diria Mia Couto, "abensonhada") de hoje e da obsessão universal do tema do tempo, lembrei-me de uma citação do filme que jamais esqueci:

"A angústia do tempo que passa faz com que as pessoas falem do tempo que faz." :)

Control Freak


Sempre fui uma doentia "control freak", com a irritante mania de planear, de organizar, de antecipar, num desejo frenético de antever um futuro que não poderia apanhar-me desprevenida. Refém de mil lembretes, de apontamentos, de notas febris, como se o meu cérebro fosse atapetado com uma infinidade de "post-its" que orientavam as minhas démarches e a minha estratégia bem cimentada. Como se dentro de mim tivesse sempre um Alemão rigoroso e implacável, que não permitia quaisquer desvios ao plano traçado.
No entanto, vejo que este feitio (e não defeito!) me encaminha no rumo certo! Hoje tive a prova disso mesmo e, com um sorriso de indisfarçável orgulho, só posso agradecer a esse Alemão invisível que vive dentro de mim! E peço que se faça justiça e que seja reposta a ordem natural das coisas.
Nós, Portugueses (e não "os Portugueses" sem o nós, como se não fizéssemos parte deste colectivo) somos avessos à cultura da reclamação. Mais do que isso, resignamo-nos a um estado de coisas, aceitamos tudo sem questionar, encolhemos os ombros, derrotados sem ir à luta, mesmo que sejamos altamente lesados no final.
Nesta batalha que hoje começa e cujo desenlace não poderei prever, por mais esquemas e rabiscos que faça, por mais cenários que possa traçar, sei que lutarei até ao fim. Em nome da justiça e da responsabilização.

Da Grécia


"Sei como os economicistas, frequentemente, são alheios à cultura - só vêem o dinheiro e não as pessoas - e talvez alguns não saibam, ou não tenham isso em conta, o que representa a Grécia na cultura ocidental.
Ora, a Grécia não é um país qualquer. Foi o berço da nossa civilização (...) Devemos-lhes a filosofia, a matemática, a ciência, os mitos e as tragédias, a literatura, a democracia, a história e a influência que teve em Roma. Sem a Grécia o império romano não teria sido o mesmo. (...)
Um Povo com este historial - e orgulhoso dele - não pode ser tratado como os mercados especulativos, as troikas e as agências de rating ao serviço do grande capital o têm visto.(...)
Quando os conflitos chegam a este nível, tão baixo e insensato, em que a solidariedade desapareceu, não admira que os Estados não europeus desconfiem da estabilidade europeia e aproveitem para tirar partido da situação. E isso pesa na consciência de todos os europeus. Não só dos Gregos. Pobre Europa! Quem a viu e quem a vê..."
Mário Soares, Revista Visão

É urgente o amor


"É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer."

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

A Demora


"O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar."

Mia Couto
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