domingo, março 18, 2012

Do tempo que faz e do tempo que passa


"O fabuloso destino de Amélie Poulain", um dos filmes que mais me marcou até hoje. Amélie, provavelmente a personagem feminina mais terna, mais completa, mais poética de sempre. A propósito da chuva abençoada (ou como diria Mia Couto, "abensonhada") de hoje e da obsessão universal do tema do tempo, lembrei-me de uma citação do filme que jamais esqueci:

"A angústia do tempo que passa faz com que as pessoas falem do tempo que faz." :)

Control Freak


Sempre fui uma doentia "control freak", com a irritante mania de planear, de organizar, de antecipar, num desejo frenético de antever um futuro que não poderia apanhar-me desprevenida. Refém de mil lembretes, de apontamentos, de notas febris, como se o meu cérebro fosse atapetado com uma infinidade de "post-its" que orientavam as minhas démarches e a minha estratégia bem cimentada. Como se dentro de mim tivesse sempre um Alemão rigoroso e implacável, que não permitia quaisquer desvios ao plano traçado.
No entanto, vejo que este feitio (e não defeito!) me encaminha no rumo certo! Hoje tive a prova disso mesmo e, com um sorriso de indisfarçável orgulho, só posso agradecer a esse Alemão invisível que vive dentro de mim! E peço que se faça justiça e que seja reposta a ordem natural das coisas.
Nós, Portugueses (e não "os Portugueses" sem o nós, como se não fizéssemos parte deste colectivo) somos avessos à cultura da reclamação. Mais do que isso, resignamo-nos a um estado de coisas, aceitamos tudo sem questionar, encolhemos os ombros, derrotados sem ir à luta, mesmo que sejamos altamente lesados no final.
Nesta batalha que hoje começa e cujo desenlace não poderei prever, por mais esquemas e rabiscos que faça, por mais cenários que possa traçar, sei que lutarei até ao fim. Em nome da justiça e da responsabilização.

Da Grécia


"Sei como os economicistas, frequentemente, são alheios à cultura - só vêem o dinheiro e não as pessoas - e talvez alguns não saibam, ou não tenham isso em conta, o que representa a Grécia na cultura ocidental.
Ora, a Grécia não é um país qualquer. Foi o berço da nossa civilização (...) Devemos-lhes a filosofia, a matemática, a ciência, os mitos e as tragédias, a literatura, a democracia, a história e a influência que teve em Roma. Sem a Grécia o império romano não teria sido o mesmo. (...)
Um Povo com este historial - e orgulhoso dele - não pode ser tratado como os mercados especulativos, as troikas e as agências de rating ao serviço do grande capital o têm visto.(...)
Quando os conflitos chegam a este nível, tão baixo e insensato, em que a solidariedade desapareceu, não admira que os Estados não europeus desconfiem da estabilidade europeia e aproveitem para tirar partido da situação. E isso pesa na consciência de todos os europeus. Não só dos Gregos. Pobre Europa! Quem a viu e quem a vê..."
Mário Soares, Revista Visão

É urgente o amor


"É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer."

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

A Demora


"O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar."

Mia Couto
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