segunda-feira, setembro 09, 2013

Da Escandinávia com amor!

Com imensa pena minha, tenho andado muito afastada deste meu Pechisbeque, que se faz de pensamentos,impressões e de uma visão pessoal e intransmissível do mundo!

Esta semana estou nos países nórdicos que emanam perfeição por todos os poros: tudo está muito bem sinalizado;as crianças parecem seres celestiais de tão belas;as pessoas deslocam-se de bicicleta para todo o lado,com uma elegância extrema e...ainda nem passaram 24 horas e já estou completamente rendida!

Tenho a sorte imensa de exercer uma profissão que me permite "ver o mundo", pelo que aproveito cada minuto destas estadas em paragens distantes, na medida do que me é possível,obviamente, sem prejuízo do exercício das minhas funções profissionais,com o máximo rigor e dedicação.

A melhor parte de qualquer viagem é,sem sombra de dúvidas, a preparação e esta não poderia ser excepção! Preparei,com a diligência de um relojoeiro suíço, uma tabela de conversão monetária para as 3 divisas nórdicas e plastifiquei-a, não fosse abater-se sobre ela um dilúvio bíblico! Descarreguei os guias Trip Advisor das 4 capitais que, com a sua concisão e objectividade, se revelaram uma ajuda mais do que preciosa!

A língua dinamarquesa tem uma sonoridade deliciosa:as palavras rebentam como estalinhos melódicos que tento mimetizar,mas sem sucesso! Hoje tentei ver as notícias e devo reconhecer que as imagens foram bastante elucidativas!

Como cheguei cedo, fiz uma viagem de barco que durou uma hora, dando a conhecer os grandes atractivos desta cidade portuária, outrora berço de intrépidos guerreiros Vikings:a arquitectura arrojada, o design que faz escola mundo afora, a gastronomia (aqui se encontra o segundo melhor restaurante do mundo, obviamente inacessível a bolsos troikianos), a riqueza da sua História e os monumentos mais marcantes. Não dispenso uma viagem de barco para obter uma imagem geral sobre as cidades e para aprender o máximo que possa,num tão curto espaço de tempo.

Copenhaga é uma cidade verde,sustentável e com imenso estilo! Suspeito que por aqui já se vive no futuro!



domingo, março 31, 2013

De senectute

Para quem estudou Latim, com afinco e especial interesse, como foi o meu caso, a figura de Cícero é tutelar. E hoje lembrei-me do seu tratado De Senectute, dedicado à velhice e ao caminho do envelhecimento que não tem de ser fatalmente penoso e árduo. Muito pelo contrário.

Não querendo sequer equiparar a nobreza dos argumentos de Cícero, em defesa da velhice e de tudo o que esta traz de benéfico, ocorreu-me um pensamento prosaico, mas não menos verdadeiro: a idade reforça a nossa identidade e aguça a personalidade, dando-lhe contornos mais reais, mais consistentes.

Não sei se será uma espécie de "síndroma Mário Soares", mas com o passar dos anos, vamos perdendo a vergonha de existir, a vergonha de ser e o que pode ser entendido como mau feitio, mais não será do que o afirmar da vontade individual. A impulsividade de outrora dá lugar a uma inquietante ponderação e o tempo também vai mostrando o que interessa preservar. A vertigem da rapidez dá lugar a uma fruição mais lenta e mais saborosa dos momentos e aprende-se a valorizar o luxo do tempo que podemos despender connosco, sem pressas, sem passos apressados.

Com o fluir do tempo, tudo o que parece um bicho de 7 cabeças acaba mesmo por se relativizar e reveste-se até de contornos risíveis e cómicos. Claro que a nostalgia é o reverso da medalha e as conversas tendem a resvalar para as doces e romantizadas memórias dos "tempos passados" e é nesse momento que nos apercebemos que estamos mesmo a entrar num outro capítulo.

Acima de tudo, e cientes dos nossos defeitos, aprendemos que jamais poderemos agradar a todos e que haverá sempre alguém a "tresler" as nossas palavras e os nossos actos. Aprendemos, assim, a não querer agradar desesperadamente a Gregos, Troianos, Cartagineses, Vikings e afins, e assumimos a nossa identidade tal como ela é, com tudo o que tem de luz e de sombra. Confiando na justeza dos nossos propósitos e acreditando que, um dia, a verdade se revelará com desarmante eloquência!

"Os homens são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons". Cícero

domingo, fevereiro 24, 2013

Os Portugueses não fazem revoluções, fazem anedotas.







Como explicar a alguém de outra nacionalidade esta estranha característica típica dos Portugueses de converter as piores agruras em material cómico? Para cada nova medida de austeridade, renova-se o anedotário nacional e surgem imagens hilariantes que nos despertam gargalhadas, com um certo sentimento de culpa à mistura. Enquanto Gregos e Espanhóis exercem o seu protesto visceral nas ruas, não raras vezes com violência, sinal de um desespero imenso e muito compreensível, os Portugueses trauteiam canções revolucionárias, fazem da cantiga uma arma, ou lançam facturas em nome do Primeiro-Ministro ou transformam os governantes em protagonistas de paródias que se disseminam à velocidade da luz. É recorrente dizer-se que os Portugueses vivem em crise desde 1143, daí a crise ser parte integrante do nosso quotidiano colectivo. Creio que desde Portugal é Portugal que a ironia, a anedota e a paródia fizeram parte da nossa informação genética colectiva. É óbvio que tudo isto é preferível a acções de protesto violentas, causando mais problemas do que apontando soluções para os graves problemas que assolam o país hoje em dia. Em qualquer tragédia há sempre um "comic relief", um alívio cómico, e creio que é mesmo essa a nossa estratégia colectiva. De alívio cómico em alívio cómico, vai-se atenuando o peso de uma realidade asfixiante, de um cinto que teima em apertar até aos limites do humanamente aceitável. Cantando e rindo, assim é a essência do Português, esse contestatário improvável.  

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Da essência felina



É bem verdade que cada gato tem uma personalidade diferente, uma identidade própria que o distingue dos demais.
A Carlota é uma gatinha muito introspectiva, com alma poética, que é capaz de ficar horas - literalmente - a contemplar o mundo lá fora.
A Snow, por sua vez, tem uma essência completamente predadora (se pudesse dar azo a essa sua natureza, fá-lo-ia, estou certa) e mesmo que esteja a dormir, se houver algum ruído fora do normal, acorda num ápice e tenta perceber o que se passa, enquanto a menina Carlota se deixa adormecer, imperturbável e lânguida, como sempre. A Snow nunca mia ou raramente o faz, sempre segura de si mesma, mas adora colinho, miminhos e todos os "inhos" que a façam sentir magnânime (foi ela a primeira princesa a entrar no reino). A Carlota mia muito e reclama miminhos a toda a hora, como se quisesse sempre assegurar-se do quão amada é.
O que partilham, para além do elo imenso da amizade: esse insondável mistério do ser-se gato que jamais iremos desvendar:) ♥

sábado, janeiro 12, 2013

Lincoln

Como se sabe, nas épocas de crise aguda e de profundo descontentamento, é ténue a linha que separa a razoabilidade da demagogia e do extremismo. Num contexto de aumento desenfreado do desemprego, de sérios problemas económicos, de miséria, nos casos mais extremos (que se tornam cada vez mais recorrentes), é comum que as pessoas olhem "o outro" com desconfiança e, lamentavelmente, com um certo repúdio. Hoje em dia, na actual conjuntura de crise europeia, que é também uma crise de identidade, os Portugueses dizem que não são Gregos, os Espanhóis dizem que não são Portugueses, e por aí fora. Nada disto é particularmente salutar.

Este breve contexto para reforçar a importância da mensagem do épico filme "Lincoln", numa representação magistral e irrepreensível do grande Daniel Day Lewis (que para mim será sempre o eterno Thomas da "Insustentável Leveza do Ser").

Ao longo da trama, vamos acompanhando o percurso deste grande estadista que (este sim!) realizava uma presidência activa, recebia os cidadãos, ia ao seu encontro e tinha sempre uma história eloquente e inteligente para ilustrar determinada realidade. O filme decorre na época da sangrenta e visceral Guerra Civil, no seu segundo mandato, e nasce de uma profunda e dolorosa cisão entre brancos e negros e, sobretudo, de um historial de escravatura que tantas vítimas causara.

Lincoln, homem sábio e eloquente, com um sentido de humor irresistível, Republicano, foi desde sempre um acérrimo defensor da igualdade natural entre os homens e lutou com todas as suas forças pela abolição da escravatura e pela aprovação da 13ª Emenda. Com o perspicaz argumento de querer acabar com a terrífica Guerra Civil, Lincoln conseguiu o feito extraordinário de convencer os seus pares Republicanos e os estranhamente avessos Democratas -foi uma das coisas que mais me surpreendeu no filme, por considerar que a noção de igualdade seria absolutamente natural entre a facção Democrata - a fazer aprovar esta determinante 13ª Emenda que aboliu, em definitivo a escravatura, e decretou algo que para nós hoje é de uma clareza tão evidente e desarmante: a igualdade natural entre os seres humanos.

No dia 31 de Janeiro de 1865 fez-se História. Por triste ironia do destino, Abraham Lincoln acabou por ser assassinado por um qualquer extremista, enquanto assistia à ópera, um género que lhe era tão caro. Ele defendia já nesse tempo o direito de voto dos negros e acabou por ser vítima do seu ideário progressista e, acima de tudo, humano. É desta cepa de que se fazem os estadistas, os homens de visão, aqueles que fazem História e mudam os tempos.

Lincoln abriu a porta a Obama. E devemos estar-lhes gratos por isso. A grandeza de um estadista não está na cor da pele, mas na forma humana com que exerce o seu poder, com sensibilidade e bom senso.

"As coisas que são iguais a uma terceira são iguais entre si." Euclides

(até para a Matemática, este é um pressuposto evidente, ou nas palavras de Lincoln, "self-evident")
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