sábado, janeiro 12, 2013

Lincoln

Como se sabe, nas épocas de crise aguda e de profundo descontentamento, é ténue a linha que separa a razoabilidade da demagogia e do extremismo. Num contexto de aumento desenfreado do desemprego, de sérios problemas económicos, de miséria, nos casos mais extremos (que se tornam cada vez mais recorrentes), é comum que as pessoas olhem "o outro" com desconfiança e, lamentavelmente, com um certo repúdio. Hoje em dia, na actual conjuntura de crise europeia, que é também uma crise de identidade, os Portugueses dizem que não são Gregos, os Espanhóis dizem que não são Portugueses, e por aí fora. Nada disto é particularmente salutar.

Este breve contexto para reforçar a importância da mensagem do épico filme "Lincoln", numa representação magistral e irrepreensível do grande Daniel Day Lewis (que para mim será sempre o eterno Thomas da "Insustentável Leveza do Ser").

Ao longo da trama, vamos acompanhando o percurso deste grande estadista que (este sim!) realizava uma presidência activa, recebia os cidadãos, ia ao seu encontro e tinha sempre uma história eloquente e inteligente para ilustrar determinada realidade. O filme decorre na época da sangrenta e visceral Guerra Civil, no seu segundo mandato, e nasce de uma profunda e dolorosa cisão entre brancos e negros e, sobretudo, de um historial de escravatura que tantas vítimas causara.

Lincoln, homem sábio e eloquente, com um sentido de humor irresistível, Republicano, foi desde sempre um acérrimo defensor da igualdade natural entre os homens e lutou com todas as suas forças pela abolição da escravatura e pela aprovação da 13ª Emenda. Com o perspicaz argumento de querer acabar com a terrífica Guerra Civil, Lincoln conseguiu o feito extraordinário de convencer os seus pares Republicanos e os estranhamente avessos Democratas -foi uma das coisas que mais me surpreendeu no filme, por considerar que a noção de igualdade seria absolutamente natural entre a facção Democrata - a fazer aprovar esta determinante 13ª Emenda que aboliu, em definitivo a escravatura, e decretou algo que para nós hoje é de uma clareza tão evidente e desarmante: a igualdade natural entre os seres humanos.

No dia 31 de Janeiro de 1865 fez-se História. Por triste ironia do destino, Abraham Lincoln acabou por ser assassinado por um qualquer extremista, enquanto assistia à ópera, um género que lhe era tão caro. Ele defendia já nesse tempo o direito de voto dos negros e acabou por ser vítima do seu ideário progressista e, acima de tudo, humano. É desta cepa de que se fazem os estadistas, os homens de visão, aqueles que fazem História e mudam os tempos.

Lincoln abriu a porta a Obama. E devemos estar-lhes gratos por isso. A grandeza de um estadista não está na cor da pele, mas na forma humana com que exerce o seu poder, com sensibilidade e bom senso.

"As coisas que são iguais a uma terceira são iguais entre si." Euclides

(até para a Matemática, este é um pressuposto evidente, ou nas palavras de Lincoln, "self-evident")
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