sábado, setembro 06, 2014

Blasé

O que nos comove é sempre o que nos move. Nesta expressão vive um inconformismo contido, mas que um dia acabará por vir à superfície. Há neste olhar pretensamente distante uma natureza irrequieta que teima em não aceitar os ditames da maioria e que rejubila na diferença. É uma pintura que me observa e me desvenda.

Obra do acervo do Museu do Caramulo

domingo, agosto 24, 2014

Silly world






















Muita tinta tem corrido e muito se tem discorrido sobre o mundo pré- é pós-Facebook. Afinal, o que mudou nesta imensa sociedade global com a disseminação alucinante desta rede social que parece querer perdurar durante muitos anos?

Antes de mais, é tarefa árdua sugerir uma análise crítica quando nos encontramos, também nós, os supostos críticos e questionáveis pensadores da modernidade, dentro dessa imensa nação em que se converteu o Facebook.

Um dado é certo:se Freud regressasse à era contemporânea, iria encontrar uma sociedade com elevados - senão mesmo doentios - níveis de narcisismo, numa verdadeira vertigem de auto-deslumbramento. Mais importante do que a palavra, a reflexão, o primado do pensamento, ainda e sempre a imagem, o parecer em detrimento do ser. Este poderia ser palco de discussões profícuas, da democracia e da democratização, da liberdade de expressão e do pensamento livre. Mas a "selfie" da praxe afigura-se sempre mais tentadora do que a Faixa de Gaza. 

O Facebook veio roubar tempo à leitura, à palavra escrita, à análise detalhada. Tudo se tornou demasiado etéreo, demasiado vazio, demasiado irrelevante. 

Ainda que seja pelas melhores e mais meritórias causas, atropelam-se baldes com gelo que caem sobre corpos que gritam e o mundo global assiste ao espectáculo de uma estranha democratização. Não sei se é reflexo da "silly season" ou de um mundo cada vez mais imbecil e acrítico.

quarta-feira, maio 14, 2014

Muito barulho por nada

Já todos sabemos que subjaz ao discurso político das classes governantes uma profunda aura moralizante. Com a entrada da troika em Portugal, os governantes logo se apressaram a rotular os sacrifícios de necessárias punições, num país que, levianamente, vivia "acima das suas possibilidades" e que se deixou deslumbrar pelo admirável mundo novo do crédito fácil. Ou seja, o país iria percorrer uma árdua via sacra e, de sacrifício em sacrifício, iria alcançar uma espécie de salvação final.

Eis senão quando, a troika começa a acenar com o seu impoluto lenço branco e agora o discurso político vigente já se virou para uma espécie de restauração da independência e da soberania, libertando-se, heroicamente, do jugo opressor da "troika" que, de uma forma bem esquizofrénica, ora é solução, ora é problema, ora é altruísta, ora é usurária.

É muito interessante analisar as nuances que a retórica política tem assumido ao longo destes três anos. De intervenção passou a ajuda e de ajuda a ajustamento. E assim se molda a semântica, ao sabor dos acontecimentos e, sobretudo, dos interesses políticos que sejam mais prementes no momento. E como agora estamos perto das eleições europeias, já se começam a soltar patéticos foguetes de contentamento.

Mas também sabemos que nada do que parece é realmente. Esta "ajuda" implica um preço elevadíssimo a pagar e haverá muitos que lucram com tal acto de generosidade. Como se costuma dizer, "não há almoços grátis" e a completa ambiguidade de critérios tem sido uma constante. Por que motivo houve uma intervenção efectiva em Portugal e na Grécia e não houve em Espanha, conhecida que era a gravíssima crise em que o nosso país irmão estava mergulhado? Quem são os grandes e reais beneficiários de todo este processo? A verdade nua e crua é bem mais dolorosa do que à partida parece.

O mais importante, do meu ponto de vista, é colocar a seguinte questão: volvidos 3 árduos anos, como está Portugal? Não vejo qual o motivo de tamanha euforia, nem tão pouco qualquer razão para comemorar. Estamos mais pobres; o nosso poder de compra diminuiu brutalmente; os nossos salários são cada vez mais magros; pende sobre nós uma carga fiscal sem precedentes; o Estado social ameaça converter-se numa miragem; o desemprego não pára de crescer; a pobreza aumenta de forma verdadeiramente assustadora; os reformados vêem as suas pensões cada vez mais reduzidas; trabalhamos mais e ganhamos muito menos; a exploração laboral é a nota dominante e os jovens qualificados fazem as malas, rumo a um futuro mais solar.

No dia 17 de Maio, continuaremos em crise. E tão distantes desse país remoto chamado esperança...

domingo, maio 04, 2014

Dallas Buyers' Club



Gosto de filmes que me revolvam as entranhas e que me acordem para realidades duras - estranhas, é certo - mas não menos verdadeiras.
"Dallas Buyers' Club", filme de produção independente, é um autêntico murro no estômago. Para quem viu o "Philadelphia" há uns anos atrás, na década de 90, e o achou forte, este filme é infinitamente mais contundente. Vai ao cerne da ferida,retratando a árdua realidade dos infectados com HIV e,pior ainda do que este vírus insidioso que destrói o sistema imunitário, o cruel estigma da invariável associação à comunidade homossexual.
Aqui se espelha a luta por uma vida com a maior dignidade possível, quantas vezes um autêntico combate de David contra o Golias do Estado, dos interesses das farmacêuticas que pouco têm a ver com as reais necessidades dos pacientes.
De uma humanidade visceral, este "Dallas Buyers Club" mostra-nos que há sempre uma luz,por mais ténue que seja,na pior escuridão. Mesmo que não seja para a nossa própria redenção. Haverá sempre alguém que irá receber essa esperança com um coração repleto de amor!
Os Oscars, atribuídos aos actores principal - Matthew McCounaghey - e secundário - Jared Leto - não poderiam ser,assim,mais acertados! Representações de suster a respiração, do primeiro ao último segundo!

"Dallas Buyers' Club" (2013)
Realizado por Jean-Marc Vallée

sexta-feira, abril 04, 2014

Berlin: ich liebe Dich!

Ilha dos Museus
Há algo de profundamente iniciático no ritual da viagem. Diria que há cidades que se colam à nossa pele e que continuam a viajar dentro de nós, fazendo parte integrante da nossa essência. A primeira viagem que fiz foi sozinha. Destino: Berlim. Era a primeira vez que andava de avião e, assim foi, sentindo o crepitar do medo e da curiosidade que se entrelaçavam de forma alucinante. E no momento da descolagem qualquer ateu se torna o católico mais fervoroso, desfiando um rol de orações para conseguir chegar ao seu destino são e salvo!

O melhor da viagem é o detalhe da preparação, a rota que se começa a delinear, a ganhar corpo, a adrenalina inigualável da antecipação. Germanista de formação, a viagem a Berlim foi pensada ao pormenor, ao mais ínfimo detalhe e uma semana parecia-me tristemente pouco para tudo aquilo que queria explorar! A viagem começou a ganhar forma, antes sequer de começar. Planear já é partir. Vibrar de expectativa já é sentir.

Acredito que a forma como vemos os destinos e os filtramos interiormente é indissociável da fase existencial que estamos a atravessar. Bem sei que poucas pessoas terão a coragem de um dia rumar a qualquer ponto do globo, completamente sozinhas. Mas aquela alegre minoria que o faz sabe que se um dia o conseguiu, não haverá limites, e que, tal como no momento do nascimento e da morte, estamos sempre sozinhos. Não tenhamos medo de nos encontrarmos connosco próprios. Daí advém a certeza solar da nossa própria força e determinação inabaláveis!

Torre da Televisão
Reichstag - Parlamento alemão
A primeira questão que se colocou foi: porquê Berlim? Sempre fui uma apaixonada da língua alemã, uma entusiasta do rigor matemático da língua de Goethe e de Günter Grass. O Alemão ou se ama ou se odeia e no meu caso, foi amor à primeira vista. E de tal forma, que sempre senti que era quase a minha língua-mãe, ainda que a tivesse aprendido e apreendido, mas como toda as paixões desvairadas, a língua entranhou-se em mim para nunca mais me largar. É amor para a vida!

Berlim, por sua vez, sempre me fascinou por todos os motivos e mais algum, num rol infindável de lugares comuns que se dizem normalmente sobre esta metrópole, mas acima de tudo pela tremenda energia e pela forma como renasceu das cinzas da destruição da guerra e se reergueu, sem nunca esconder o seu lado mais sombrio. E foi precisamente isso que descobri na minha iniciática viagem a Berlim: uma cidade de arquitectura estonteante - verdadeiro laboratório vivo das mais diversas escolas de arquitectura e design - que não esconde os horrores da segunda grande guerra, do delírio do nazismo e que nesse exercício de memória, convoca todos os seus visitantes à reflexão. Porque a melhor forma de evitar que a História se repita é apelar à memória, é mostrar os lados mais negros, por mais incómodo que pareça causar.

Nessa viagem maravilhosa, acordava ou por outra, madrugava todos os dias, e bebia o tempo com fervor, aproveitando cada momento mais ínfimo para descobrir, para aprender, para crescer.

Aconselho vivamente a quem visite Berlim pela primeira vez a fazer as denominadas "Berlin Walks", percursos a pé pelos ícones da cidade, conduzidos por guias conhecedores e simpáticos que nos mostram Berlim com mestria e sentido de humor. Fiz a rota do melhor de Berlim e da herança judaica e, como não poderia deixar de ser, fui visitar com grande detalhe o belíssimo Museu Judaico de Berlim da autoria do prestigiado arquitecto Daniel Liebeskind, um edifício de desenho ousado e, diria, tortuoso que traça a história do povo judaico, revelando o que teve de sol e de sombra.

Ainda no plano da arquitectura, a cúpula do Parlamento alemão - do Reichstag - desenhada por Norman Foster é indispensável. Daí se avista a cidade em todo o seu esplendor, uma metrópole de dimensão 4 vezes superior a Paris e que, tal como a capital francesa, também apaixona quem a visita.

A Ilha dos Museus, a ampla e encantadora avenida Unter den Linden, as portas de Brandenburgo, o hino à arquitectura contemporânea corporizado pela Potsdamer Platz, toda a zona leste da cidade - o leste profundo com os seus blocos residenciais de pendor estalinista e os seus Trabants que ainda circulam, hoje em dia "só para turista ver" - a inescapável Torre da Televisão e a icónica Alexanderplatz que de ícone comunista se converteu numa verdadeira ode ao capitalismo: todos os motivos e mais algum para partir à descoberta de uma cidade que foi palco de tanta História, de tamanhas transformações, e que não cessa de nos surpreender!

Depois dessa viagem, muitas outras se seguiram. A grande maioria, por obrigação profissional. Todas as viagens nos mudam à sua maneira. E em cada uma dessas viagens - e tenho a sorte de todos os anos poder regressar a Berlim - o olhar se renova e se enriquece. No entanto, a primeira viagem a Berlim teve o condão de ser a primeira. Desejada do primeiro ao último instante. E, por isso, inesquecível!

Berlin: ich liebe Dich!

domingo, fevereiro 16, 2014

Abril, 40 anos depois. E agora?



Em 2014, as comemorações do 25 de Abril atingem um ano redondo: a revolução celebra 40 anos e, mais do que nunca, urge pensar o que ficou do legado de Abril e, mais importante ainda, como se projecta o espírito e a memória da conquista da liberdade no futuro e como o iremos transmitir às gerações vindouras.

Já nasci 4 anos depois da Revolução dos Cravos e, tal como todas as pessoas da minha geração, as imagens que retenho dessa época foram construídas com base na leitura, no estudo, em documentários históricos e há, sem sombra de dúvida, um inevitável lado mitificado que é próprio de quem não viveu essa época e que, por esse motivo, é livre - é sempre de liberdade que se trata - de criar a sua visão pessoal dos acontecimentos.

Comecemos, assim, pelo lado poético do 25 de Abril. Pode ser um lugar-comum, mas há algo de profundamente belo numa revolução que dispara cravos em vez de tiros. Curiosamente, algo que é criticado pelos mais belicistas que defendem que as nações mais desenvolvidas evoluíram à custa de muito derramamento de sangue. Prefiro esta revolução, bem ao gosto dos "brandos costumes" lusos, de cujos canos de espingarda saem flores e esperança.

Após o interminável Inverno da ditadura de Salazar, que tantas vozes silenciou, a Revolução dos Cravos trouxe a liberdade de pensamento e de acção e a promessa de um futuro colectivo mais solar. As pessoas tinham agora voz para expressar a sua individualidade, para fazer as suas escolhas, sem medo de retaliações ou de punições.

Apesar de todas as debilidades da nossa democracia, que me parecem óbvias, mas que não são exclusivas do nosso país (na Europa já se elegeram governos de tecnocratas sem a realização de eleições), a liberdade foi a mais bela e poética conquista de Abril.

Mas há sempre um penoso reverso da medalha. Volvidos 40 anos, o que guardámos da memória do 25 de Abril? Que democracia construímos e que democracia estamos a projectar para as gerações futuras? Ao longo destas 4 décadas, o país desenvolveu-se imenso, parece-me inegável, fruto da nossa integração no projecto europeu, mas esse desenvolvimento foi sobretudo material. Não se criou uma mentalidade para a democracia e para a participação activa dos cidadãos na coisa pública.

Sucessivos (des)governos foram eleitos virados para os seus umbigos e para os interesses das suas cliques, desbaratando os cofres do Estado e distanciando-se, tal como as elites das ditaduras, do povo comum que paga os seus impostos, que trabalha arduamente e que jamais vê o retorno desse esforço. A par desse total distanciamento entre governantes e governados, uma realidade que me parece verdadeiramente assustadora: a criação das juventudes partidárias que mais não são do que legiões de mediocridade que, quando chegadas ao poder, irão replicar todos os erros dos governo anteriores e padecer das mesmas enfermidades, servindo interesses pouco claros que não o interesse nacional.

E, desta forma, as pessoas vão-se afastando cada vez mais dos seus governantes e não haverá nada mais perigoso do que o pressuposto de que "são todos iguais" e de que o voto nada vale. O exercício da democracia tem, necessariamente, de passar por um questionar permanente, por um modelo que dê voz aos cidadãos, aos seus anseios, às suas críticas, às suas expectativas, e não se pode resumir a uma cruz pontual que se traça de 4 em 4 anos. A democracia, tal como se sonhou na Grécia Antiga, dá voz, dá poder ao cidadão comum e convoca todos os cidadãos neste processo.

A partidarização da nossa democracia é corrosiva e só levará a um adensar deste fosso entre quem governa e quem é governado. É urgente formar políticos capazes que coloquem o interesse do Estado e do país em primeira linha, que não sejam eternamente permeáveis a outros interesses que não têm como fim último o bem comum. É urgente sonhar um país melhor, mais evoluído, mais participativo e consciente do que tem de exigir de si e das classes governantes. O afastamento dos cidadãos da democracia abre caminho a um futuro inquietante.

Não foi para isso que se dispararam flores em Abril de 74...


sábado, fevereiro 15, 2014

Be my Valentine! Viseu na óptica do utilizador romântico.


Fui convidada pela Guida Design de Eventos a escrever um texto sobre o Dia dos Namorados em Viseu e aqui segue o meu roteiro, pessoal e intransmissível, por esta cidade de granito e de flores. Há, em Viseu, um romantismo, à primeira vista, pouco visível, a que as palavras do texto e as fotografias encantadoras de Mónica Tavares, com a assistência de João Tavares, deram corpo.

Porque é de Viseu que se trata, um imenso "bem-haja", uma vez mais, à Guida Design de Eventos por este convite que tanto prazer me proporcionou, quer no papel de modelo "acidental" e improvável, quer na escrita em si. As palavras, sempre as palavras. É esse o meu mundo e só aí me sinto inteira.

Be my Valentine! Viseu na óptica do utilizador romântico. 

Nunca regresses a um lugar onde foste feliz. Sempre duvidei desta máxima, aparentemente infalível, como todas as máximas que tenham pretensões de ser definitivas e universais. A forma como lemos um local nunca é a mesma, mudando a cada instante, ao sabor das nossas emoções, e por isso o exercício de (re)visitar se torna tão empolgante.

Proponho um roteiro pessoal e intransmissível pela cidade de Viseu, no dia em que se celebra o Dia de São Valentim, o santo mártir que, com a sua vida, se eternizou como padroeiro do Amor, na civilização ocidental. A memória do seu legado logo se esfumou, dando lugar a um consumismo desenfreado e sem critério. Mas os nossos trilhos serão outros. 

Será Viseu feminino ou masculino? Esta é para mim uma questão muito intrigante que insiste em permanecer sem resposta. Há na sua essência granítica, nas suas casas senhoriais, na imponência de uma Sé Catedral que não cessa de surpreender quem a vislumbra, uma qualidade manifestamente masculina. No entanto, Viseu acolhe os seus visitantes de braços abertos e sorriso rasgado, com mesas fartas e vinhos de excelência, e nada me parece mais feminino do que esse instinto de uma cidade que é mãe extremosa e dedicada.

Parque de boas memórias
O Parque Aquilino Ribeiro, um dos locais mais emblemáticos da cidade para amantes de sucessivas gerações, foi redesenhado, adaptando-se às necessidades da era contemporânea. Hoje em dia, há suportes para bicicletas, mesas de piquenique, bancos mais confortáveis e um parque infantil muito moderno e bem equipado.
As árvores continuam frondosas e altivas, escondendo os segredos mais inconfessáveis e afagando os enamorados nas suas sombras generosas nos dias mais quentes e secos.
O Parque (como é conhecido pelos locais, que deixam cair o nome do escritor brilhante que lhe deu nome, não por falta de respeito ou de memória histórica, apenas porque se havia tornado incrivelmente familiar) já não tem a aura clandestina de tempos idos. O secretismo das suas amplas avenidas deu lugar a uma maior luminosidade. Mas o tempo insiste em não passar e os demorados passeios de mãos entrelaçadas nunca saíram de moda! 

Do Rossio, com amor

Seguimos rumo à Praça da República, conhecida como Rossio entre os viseenses, o local onde o coração da cidade bate mais forte.
Sob as magníficas tílias intemporais, os enamorados sussurram palavras de açúcar e trocam olhares de cumplicidade, indiferentes ao insistente tiquetaque do relógio e aos burburinhos da cidade que não pára.
Aqui se realizava a ancestral feira semanal, retratada com inegável mestria, no belíssimo painel de azulejos da autoria de Joaquim Lopes (início do séc. XX) que deixa boquiabertos os que pelo Rossio deambulam.
Mesmo ao lado do Rossio, encontra-se o Jardim das Mães, cuidado com um esmero de relojoeiro suíço, e que é um hino à maternidade e ao poder criador da mulher.

De funicular é que vamos!
Primeiro estranhou-se, depois entranhou-se. O funicular de Viseu foi desde o seu aparecimento, uma obra polémica. Criticava-se a curta duração do trajecto e o interesse do investimento.
No entanto, com o passar do tempo, o “amarelinho” foi conquistando os cépticos e tornou-se um meio de transporte muito interessante para todos aqueles que queiram, a partir da zona ribeirinha, chegar à Sé Catedral, num trajecto visualmente apelativo.

Museu Grão Vasco
Em Viseu, todos os caminhos vão dar ao Museu Grão Vasco, um verdadeiro ícone da cidade.
Este é o local ideal para partilhar olhares sobre a genialidade da pintura de Vasco Fernandes, Grão Vasco, o primeiro pintor na história da pintura europeia a retratar o índio nativo do Brasil. Este foi um pintor que, com mestria e com afecto, conseguiu fazer a síntese entre as influências da pintura europeia da época renascentista e os elementos mais regionalistas e locais. Dessa simbiose nasceram verdadeiras obras-primas da pintura, sendo a representação do São Pedro o ponto mais alto da sua maturidade artística.
O Museu Grão Vasco foi remodelado pelo prestigiado arquitecto e Prémio Pritzker da Arquitectura, Eduardo de Souto Moura.O carácter sombrio e frio do edifício perdeu-se por completo, nascendo um espaço de luz e sobriedade que tão bem se enquadra no conjunto arquitectónico envolvente. Para os amantes dos livros e das letras, a livraria do Museu Grão Vasco é um recanto acolhedor onde se encontram obras muito interessantes, no plano da arte e da arquitectura. 

Maria Xica, dona e senhora do seu nariz
Não haverá outro espaço em Viseu, onde os enamorados se sintam tão especiais como na Maria Xica!
Resultado da meticulosa recuperação de uma antiga casa familiar, a Maria Xica é hoje um dos recantos mais apaixonantes da cidade de Viseu. Um certo toque nostálgico, mas sempre acolhedor, faz da Maria Xica um local exclusivo onde nos sentimos em casa.O restaurante no piso térreo é muito aconchegante e o menu de tapas portuguesas verdadeiramente irresistível. No entanto, para um jantar a dois, mais reservado e num ambiente recatado, nada melhor do que escolher uma das salinhas do andar de cima, onde móveis de época convivem com elegantes peças de design. O serviço prima pela simpatia e pela importância do detalhe. 
Aqui somos especiais, e é esse sentimento que torna esta casa tão marcante e, por isso, inesquecível!

Adormecer na Casa da Sé
No final de um dia de descoberta e de partilha, a Casa da Sé assume-se como o refúgio perfeito. Com um belíssimo enquadramento, na Praça Dom Duarte, avistando as imponentes varandas da Sé Catedral, este é um espaço de absoluto requinte e de elegância.
Os doze quartos da Casa da Sé evocam figuras históricas de renome que nasceram em Viseu e que, à sua maneira, celebrizaram o nome da cidade. São espaçosos e amplos, com detalhes absolutamente excepcionais, que revelam um esmero imenso no domínio da conservação e do restauro. 

A Casa da Sé, como os grandes palcos de excelência em Viseu, possui um ambiente deliciosamente familiar, envolvendo os seus hóspedes com a sua hospitalidade e atenção, tão características desta região. 
O pequeno-almoço é um verdadeiro manjar dos deuses, recheado de pequenos mimos e de irresistíveis compotas e bolos caseiros. Delicie-se com as inúmeras surpresas e recantos apaixonantes que esta cidade de granito e flores lhe reserva.

E se foi feliz, regresse sempre!  


Capa de burel por Atelier de Burel | Miguel Gigante

Nail design por Catarina Secretnails




segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Silêncios que falam

A minha descoberta do admirável mundo animal foi algo tardia, e por isso só posso lamentar todos os dias que passei na ignorância de tudo o que de intrinsecamente bom um animal de estimação nos traz, de forma generosa e abnegada. E a vida enche-se de uma luz maior! O sonho de ter um animal de estimação sempre viveu dentro de mim, mas o facto de ter passado muitos anos entre Lisboa e Viseu, de cá para lá, qual nómada da modernidade, contribuiu muito para que esse sonho se fosse adiando. Mas continuava sempre latente, sedento por ganhar vida. Adoptei, numa primeira fase, duas gatinhas, a Snow e a Carlota, tão diferentes entre si como o dia da noite. Tal como os seres humanos, os animais detêm personalidades muito díspares, agem de modo absolutamente singular e, à sua maneira muito própria, vão conquistando o nosso afecto. Com patinhas de lã e muita subtileza, no caso dos pequenos felinos. A figura do gato, que tem encantado sucessivas gerações de escritores, poetas, músicos, actores, pensadores sempre me fascinou. Gosto, em especial, da forma discreta como estes animais expressam o que sentem. Assemelham-se a verdadeiros aristocratas ingleses, contidos na expressão do sentimento, elegantes na pose, requintados no trato. O gato consegue a síntese perfeita (e invejável) entre a ligação emocional e a necessária distância. Sabem preservar o seu território,  a sua inebriante individualidade, sem hostilizar, reclamando-nos no seu mundo de patinhas silenciosas e de ternura. O mistério do gato, por excelência,  é para mim o ronronar, o "motor afectivo",como tão bem definiu Adriana Calcanhotto. É a sua forma, tão mágica e especial, de mostrar a plenitude do bem-estar e da completude emocional. Ao som do ronronar das minhas gatinhas, consigo evadir-me da realidade, esquecer o lado mais sombrio das coisas e levitar de satisfação! Bem diferente é o cão,  o eterno melhor amigo do Homem. Sempre duvidei de frases feitas e, pior ainda, de pensamentos unanimistas,  mas tenho mesmo de reconhecer que é mais o que nos aproxima do cão do que o que nos afasta. Há no seu instinto protector, na sua fidelidade incondicional, na sua amizade genuína qualidades superiores, próprias de seres intrinsecamente bons. Quando adoptei o menino/senhor Tobias, o que mais estranhei (ainda que rapidamente tivesse entranhado) foi o aumento do nível de decibéis! Estava de tal forma habituada - somos mesmo animais de hábitos - ao silêncio ronronante das gatinhas que o ladrar, o latir, o uivar do Tobias me atingiram com a precisão de um relâmpago. No entanto, a alegria militante com que nos recebem ao final do dia, como se de uma eternidade se tivesse tratado; as insistentes lambidelas de saudação; os pulos acrobáticos de contentamento com que nos brindam são a prova cabal de que o animal, como alguém disse um dia, "são os únicos seres na Terra que nos amam mais do que a si mesmos". Em comum, cães e gatos partilham a sabedoria do silêncio, mostrando-nos que as palavras são desnecessárias, porque, por maior que seja a sua beleza, contêm em si o princípio da destruição e da mágoa. Os nossos amigos de 4 patas são sábios no seu silêncio e sabem amar sem magoar...

domingo, fevereiro 09, 2014

Endomingando

Há algo de profundamente iniciático em qualquer domingo que passa. Esfumada a euforia recorrente do fim-de-semana, o domingo é aquele dia etéreo que nos obriga a parar para pensar, para organizar e ganhar forças para enfrentar tudo de novo. Como uma fénix que renasce das cinzas da alegria passageira e que se reinventa com novo fôlego. Não sei se será deste Inverno que parece eterno, desta chuva oblíqua que se abate, impiedosa, sobre nós, mas os domingos têm um peso maior. Quando o sol irrompe, glorioso, pela janela, tudo é leve e lento, e os fardos que se carregam tornam-se risíveis e deliciosamente perecíveis. Neste longo Inverno, a alma clama por sol e por luz e, num ápice, a vida se renova, com indisfarçável fulgor.

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