segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Silêncios que falam

A minha descoberta do admirável mundo animal foi algo tardia, e por isso só posso lamentar todos os dias que passei na ignorância de tudo o que de intrinsecamente bom um animal de estimação nos traz, de forma generosa e abnegada. E a vida enche-se de uma luz maior! O sonho de ter um animal de estimação sempre viveu dentro de mim, mas o facto de ter passado muitos anos entre Lisboa e Viseu, de cá para lá, qual nómada da modernidade, contribuiu muito para que esse sonho se fosse adiando. Mas continuava sempre latente, sedento por ganhar vida. Adoptei, numa primeira fase, duas gatinhas, a Snow e a Carlota, tão diferentes entre si como o dia da noite. Tal como os seres humanos, os animais detêm personalidades muito díspares, agem de modo absolutamente singular e, à sua maneira muito própria, vão conquistando o nosso afecto. Com patinhas de lã e muita subtileza, no caso dos pequenos felinos. A figura do gato, que tem encantado sucessivas gerações de escritores, poetas, músicos, actores, pensadores sempre me fascinou. Gosto, em especial, da forma discreta como estes animais expressam o que sentem. Assemelham-se a verdadeiros aristocratas ingleses, contidos na expressão do sentimento, elegantes na pose, requintados no trato. O gato consegue a síntese perfeita (e invejável) entre a ligação emocional e a necessária distância. Sabem preservar o seu território,  a sua inebriante individualidade, sem hostilizar, reclamando-nos no seu mundo de patinhas silenciosas e de ternura. O mistério do gato, por excelência,  é para mim o ronronar, o "motor afectivo",como tão bem definiu Adriana Calcanhotto. É a sua forma, tão mágica e especial, de mostrar a plenitude do bem-estar e da completude emocional. Ao som do ronronar das minhas gatinhas, consigo evadir-me da realidade, esquecer o lado mais sombrio das coisas e levitar de satisfação! Bem diferente é o cão,  o eterno melhor amigo do Homem. Sempre duvidei de frases feitas e, pior ainda, de pensamentos unanimistas,  mas tenho mesmo de reconhecer que é mais o que nos aproxima do cão do que o que nos afasta. Há no seu instinto protector, na sua fidelidade incondicional, na sua amizade genuína qualidades superiores, próprias de seres intrinsecamente bons. Quando adoptei o menino/senhor Tobias, o que mais estranhei (ainda que rapidamente tivesse entranhado) foi o aumento do nível de decibéis! Estava de tal forma habituada - somos mesmo animais de hábitos - ao silêncio ronronante das gatinhas que o ladrar, o latir, o uivar do Tobias me atingiram com a precisão de um relâmpago. No entanto, a alegria militante com que nos recebem ao final do dia, como se de uma eternidade se tivesse tratado; as insistentes lambidelas de saudação; os pulos acrobáticos de contentamento com que nos brindam são a prova cabal de que o animal, como alguém disse um dia, "são os únicos seres na Terra que nos amam mais do que a si mesmos". Em comum, cães e gatos partilham a sabedoria do silêncio, mostrando-nos que as palavras são desnecessárias, porque, por maior que seja a sua beleza, contêm em si o princípio da destruição e da mágoa. Os nossos amigos de 4 patas são sábios no seu silêncio e sabem amar sem magoar...

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