sexta-feira, abril 04, 2014

Berlin: ich liebe Dich!

Ilha dos Museus
Há algo de profundamente iniciático no ritual da viagem. Diria que há cidades que se colam à nossa pele e que continuam a viajar dentro de nós, fazendo parte integrante da nossa essência. A primeira viagem que fiz foi sozinha. Destino: Berlim. Era a primeira vez que andava de avião e, assim foi, sentindo o crepitar do medo e da curiosidade que se entrelaçavam de forma alucinante. E no momento da descolagem qualquer ateu se torna o católico mais fervoroso, desfiando um rol de orações para conseguir chegar ao seu destino são e salvo!

O melhor da viagem é o detalhe da preparação, a rota que se começa a delinear, a ganhar corpo, a adrenalina inigualável da antecipação. Germanista de formação, a viagem a Berlim foi pensada ao pormenor, ao mais ínfimo detalhe e uma semana parecia-me tristemente pouco para tudo aquilo que queria explorar! A viagem começou a ganhar forma, antes sequer de começar. Planear já é partir. Vibrar de expectativa já é sentir.

Acredito que a forma como vemos os destinos e os filtramos interiormente é indissociável da fase existencial que estamos a atravessar. Bem sei que poucas pessoas terão a coragem de um dia rumar a qualquer ponto do globo, completamente sozinhas. Mas aquela alegre minoria que o faz sabe que se um dia o conseguiu, não haverá limites, e que, tal como no momento do nascimento e da morte, estamos sempre sozinhos. Não tenhamos medo de nos encontrarmos connosco próprios. Daí advém a certeza solar da nossa própria força e determinação inabaláveis!

Torre da Televisão
Reichstag - Parlamento alemão
A primeira questão que se colocou foi: porquê Berlim? Sempre fui uma apaixonada da língua alemã, uma entusiasta do rigor matemático da língua de Goethe e de Günter Grass. O Alemão ou se ama ou se odeia e no meu caso, foi amor à primeira vista. E de tal forma, que sempre senti que era quase a minha língua-mãe, ainda que a tivesse aprendido e apreendido, mas como toda as paixões desvairadas, a língua entranhou-se em mim para nunca mais me largar. É amor para a vida!

Berlim, por sua vez, sempre me fascinou por todos os motivos e mais algum, num rol infindável de lugares comuns que se dizem normalmente sobre esta metrópole, mas acima de tudo pela tremenda energia e pela forma como renasceu das cinzas da destruição da guerra e se reergueu, sem nunca esconder o seu lado mais sombrio. E foi precisamente isso que descobri na minha iniciática viagem a Berlim: uma cidade de arquitectura estonteante - verdadeiro laboratório vivo das mais diversas escolas de arquitectura e design - que não esconde os horrores da segunda grande guerra, do delírio do nazismo e que nesse exercício de memória, convoca todos os seus visitantes à reflexão. Porque a melhor forma de evitar que a História se repita é apelar à memória, é mostrar os lados mais negros, por mais incómodo que pareça causar.

Nessa viagem maravilhosa, acordava ou por outra, madrugava todos os dias, e bebia o tempo com fervor, aproveitando cada momento mais ínfimo para descobrir, para aprender, para crescer.

Aconselho vivamente a quem visite Berlim pela primeira vez a fazer as denominadas "Berlin Walks", percursos a pé pelos ícones da cidade, conduzidos por guias conhecedores e simpáticos que nos mostram Berlim com mestria e sentido de humor. Fiz a rota do melhor de Berlim e da herança judaica e, como não poderia deixar de ser, fui visitar com grande detalhe o belíssimo Museu Judaico de Berlim da autoria do prestigiado arquitecto Daniel Liebeskind, um edifício de desenho ousado e, diria, tortuoso que traça a história do povo judaico, revelando o que teve de sol e de sombra.

Ainda no plano da arquitectura, a cúpula do Parlamento alemão - do Reichstag - desenhada por Norman Foster é indispensável. Daí se avista a cidade em todo o seu esplendor, uma metrópole de dimensão 4 vezes superior a Paris e que, tal como a capital francesa, também apaixona quem a visita.

A Ilha dos Museus, a ampla e encantadora avenida Unter den Linden, as portas de Brandenburgo, o hino à arquitectura contemporânea corporizado pela Potsdamer Platz, toda a zona leste da cidade - o leste profundo com os seus blocos residenciais de pendor estalinista e os seus Trabants que ainda circulam, hoje em dia "só para turista ver" - a inescapável Torre da Televisão e a icónica Alexanderplatz que de ícone comunista se converteu numa verdadeira ode ao capitalismo: todos os motivos e mais algum para partir à descoberta de uma cidade que foi palco de tanta História, de tamanhas transformações, e que não cessa de nos surpreender!

Depois dessa viagem, muitas outras se seguiram. A grande maioria, por obrigação profissional. Todas as viagens nos mudam à sua maneira. E em cada uma dessas viagens - e tenho a sorte de todos os anos poder regressar a Berlim - o olhar se renova e se enriquece. No entanto, a primeira viagem a Berlim teve o condão de ser a primeira. Desejada do primeiro ao último instante. E, por isso, inesquecível!

Berlin: ich liebe Dich!

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