domingo, fevereiro 16, 2014

Abril, 40 anos depois. E agora?



Em 2014, as comemorações do 25 de Abril atingem um ano redondo: a revolução celebra 40 anos e, mais do que nunca, urge pensar o que ficou do legado de Abril e, mais importante ainda, como se projecta o espírito e a memória da conquista da liberdade no futuro e como o iremos transmitir às gerações vindouras.

Já nasci 4 anos depois da Revolução dos Cravos e, tal como todas as pessoas da minha geração, as imagens que retenho dessa época foram construídas com base na leitura, no estudo, em documentários históricos e há, sem sombra de dúvida, um inevitável lado mitificado que é próprio de quem não viveu essa época e que, por esse motivo, é livre - é sempre de liberdade que se trata - de criar a sua visão pessoal dos acontecimentos.

Comecemos, assim, pelo lado poético do 25 de Abril. Pode ser um lugar-comum, mas há algo de profundamente belo numa revolução que dispara cravos em vez de tiros. Curiosamente, algo que é criticado pelos mais belicistas que defendem que as nações mais desenvolvidas evoluíram à custa de muito derramamento de sangue. Prefiro esta revolução, bem ao gosto dos "brandos costumes" lusos, de cujos canos de espingarda saem flores e esperança.

Após o interminável Inverno da ditadura de Salazar, que tantas vozes silenciou, a Revolução dos Cravos trouxe a liberdade de pensamento e de acção e a promessa de um futuro colectivo mais solar. As pessoas tinham agora voz para expressar a sua individualidade, para fazer as suas escolhas, sem medo de retaliações ou de punições.

Apesar de todas as debilidades da nossa democracia, que me parecem óbvias, mas que não são exclusivas do nosso país (na Europa já se elegeram governos de tecnocratas sem a realização de eleições), a liberdade foi a mais bela e poética conquista de Abril.

Mas há sempre um penoso reverso da medalha. Volvidos 40 anos, o que guardámos da memória do 25 de Abril? Que democracia construímos e que democracia estamos a projectar para as gerações futuras? Ao longo destas 4 décadas, o país desenvolveu-se imenso, parece-me inegável, fruto da nossa integração no projecto europeu, mas esse desenvolvimento foi sobretudo material. Não se criou uma mentalidade para a democracia e para a participação activa dos cidadãos na coisa pública.

Sucessivos (des)governos foram eleitos virados para os seus umbigos e para os interesses das suas cliques, desbaratando os cofres do Estado e distanciando-se, tal como as elites das ditaduras, do povo comum que paga os seus impostos, que trabalha arduamente e que jamais vê o retorno desse esforço. A par desse total distanciamento entre governantes e governados, uma realidade que me parece verdadeiramente assustadora: a criação das juventudes partidárias que mais não são do que legiões de mediocridade que, quando chegadas ao poder, irão replicar todos os erros dos governo anteriores e padecer das mesmas enfermidades, servindo interesses pouco claros que não o interesse nacional.

E, desta forma, as pessoas vão-se afastando cada vez mais dos seus governantes e não haverá nada mais perigoso do que o pressuposto de que "são todos iguais" e de que o voto nada vale. O exercício da democracia tem, necessariamente, de passar por um questionar permanente, por um modelo que dê voz aos cidadãos, aos seus anseios, às suas críticas, às suas expectativas, e não se pode resumir a uma cruz pontual que se traça de 4 em 4 anos. A democracia, tal como se sonhou na Grécia Antiga, dá voz, dá poder ao cidadão comum e convoca todos os cidadãos neste processo.

A partidarização da nossa democracia é corrosiva e só levará a um adensar deste fosso entre quem governa e quem é governado. É urgente formar políticos capazes que coloquem o interesse do Estado e do país em primeira linha, que não sejam eternamente permeáveis a outros interesses que não têm como fim último o bem comum. É urgente sonhar um país melhor, mais evoluído, mais participativo e consciente do que tem de exigir de si e das classes governantes. O afastamento dos cidadãos da democracia abre caminho a um futuro inquietante.

Não foi para isso que se dispararam flores em Abril de 74...


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