domingo, janeiro 11, 2015

The imitation game (2014)


Em plena II Grande Guerra, um matemático britânico, Alan Turing, propõe criar uma máquina pioneira, com o objectivo de descodificar o, aparentemente inquebrantável, código nazi Enigma. Esta máquina, concebida pelo génio de Turing, foi, na verdade, o primeiro computador da História que salvou a vida a 14 milhões de pessoas.

Como todos os génios, Turing era absolutamente disfuncional no plano das relações interpessoais, na expressão de afectos e de uma certa "normalidade" quotidiana. Benedict Cumberbatch demonstra, assim, todo o seu génio interpretativo, ao dar voz e corpo a este matemático notável que só, postumamente, em 2013, seria reconhecido pelo serviço prestado ao Reino Unido, na derrota do pesadelo nazi.

Para além da disfuncionalidade do génio, Alan Turing era homossexual, o que lhe valeu uma imediata perseguição, tendo como dura consequência a castração química, pois era essa, à época, a "cura" institucionalizada para a homossexualidade. Perpassa pelo filme o profundo sofrimento que é inerente à diferença, seja no domínio da inteligência, seja no plano da sexualidade. Uma figura como Allan Turing que pôs a sua genialidade matemática ao serviço da Humanidade, descodificando o que parecia inviolável, foi, ironicamente, maltratada pelos seus. Apenas por ser diferente. Tão somente.

Um excelente mote para reflexão. Um filme enorme. Benedict Cumberbatch de cortar a respiração, acompanhado por uma encantadora Keira Knightley à altura.

"Sometimes it is the people who no one imagines anything of who do the things that no one can imagine."

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Nous sommes Charlie


O início de um novo ano encerra em si um inevitável desejo de mudança, de renovação, uma crença na evolução, uma esperança num mundo melhor (por mais lugar-comum que pareça).

No entanto, este ano de 2015 amanheceu negro, demasiadamente negro. O assassínio a sangue frio, nuns estonteantes 5 minutos de barbárie, dos jornalistas do jornal satírico francês Charlie Hebdo pôs o mundo em suspenso, a chorar a morte de 12 pessoas, entre jornalistas e polícias, naquele que foi um bárbaro atentado a França, à democracia e aos valores basilares do mundo civilizado.

Antes de mais, uma ressalva: é importante não tomar o todo pela parte, considerando que estes grupos minoritários, mas não menos perigosos, são o espelho da religião muçulmana. É essa a ideia que eles tentam passar. Porém, todas as generalizações são nefastas e viciam um debate sério sobre este fenómeno tão complexo, sem solução à vista. A comunidade muçulmana, como afirmou ontem Sheikh David Munir, só pode sentir uma enorme vergonha, pelo facto de verdadeiros lunáticos perpetrarem tais actos bárbaros em nome da fé e da religião muçulmanas.

O mais assustador é constatar que esta ameaça não tem rosto, está latente e perversamente enraizada nas sociedades actuais. É uma ameaça que se pulverizou e que pode detonar a qualquer instante, em qualquer lugar, onde haja democracia e liberdade de expressão e de pensamento.

A questão da liberdade de expressão é, sem dúvida, crucial e não será a violência a calar a voz do pensamento. Mas nada me parece mais revoltante do que o total desrespeito pelo valor basilar da vida humana que estes lunáticos corporizam. Não é a fé que professam. Antes a violência pela violência.

Mas o mundo civilizado que acredita e que defende acerrimamente a liberdade de pensamento e de expressão e a democracia não se deverá deixar intimidar, erguendo-se contra a barbárie, o fundamentalismo e a intolerância. Hoje e sempre, nous sommes Charlie.
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