sábado, junho 24, 2006

Do you nokia?


Leio sempre, com muito fervor, reportagens sobre países civilizacionalmente mais avançados, provavelmente numa esperança inconsciente de que um dia essas mesmas realidades também venham a ser realidade em Portugal.
Na Única deste sábado, vem uma reportagem muito interessante sobre o milagre finlandês, que não se faz apenas de economia.
Um dos pilares do tremendo desenvolvimento deste país escandinavo - do qual pouco se sabe, para além da Nokia - é precisamente a educação. O sistema educativo finlandês é considerado um dos melhores do mundo, sendo que ao nível da Matemática (para dar um exemplo muito problemático em Portugal), os alunos finlandeses estão também no topo. O ensino é gratuito e há todo um sistema que garante assistência e transporte aos alunos.
Por outro lado, o enorme investimento na tecnologia e na inovação contribui decisivamente para o incremento económico da Finlândia, considerada já uma das economias mais bem sucedidas, a nível mundial, ultrapassando mesmo os EUA.
Como é sabido, nos países nórdicos as mulheres assumem lugares de chefia, a nível governamental, o que é um sinal claro do próprio avanço civilizacional. As mulheres finlandesas não precisam, de todo, de um sistema ridículo de quotas para alcançar esses mesmos lugares, tradicionalmente ocupados pelos homens (sobretudo tratando-se de sociedades do sul da Europa de feição católica e patriarcal).
Claro que não há países perfeitos, mas se os nossos governantes estudassem, em pormenor, estes casos de sucesso e tentassem importar esse mesmo modelo para Portugal, talvez, um dia, quem sabe, soubéssemos a sensação de liderarmos as listas do que é positivo. Só subimos ao pódio, normalmente, quando os contextos são negativos...

quinta-feira, junho 22, 2006

A Esfera Armilar
















Numa altura em que o sentido de identidade nacional está verdadeiramente à flor da pele, centramos a nossa atenção nos símbolos que a definem e distinguem.

Um desses símbolos, absolutamente magnífico, é a Esfera Armilar que está patente na bandeira portuguesa, reflectindo o legado de D. Manuel e a época áurea dos Descobrimentos. Além disso, a Esfera Armilar testemunha a visão ptolomaica do mundo, segundo a qual os astros giravam em torno da Terra.


Para ler mais acerca da Esfera Armilar, clique aqui ou neste artigo da Wikipedia.

Lisbon story

Segundo um estudo realizado pelas Selecções do Reader's Digest (este nome parece quase jurássico, remetendo para aquelas revistinhas que se liam há muitos anos atrás... será isto a velhice?), Lisboa é uma das cidades mais simpáticas do mundo. Nova Iorque, por sua vez, seria a cidade mais bem-educada do planeta.
Lisboa é muito mais do que uma cidade simpática. Encerra em si uma magia, uma beleza indizível que se entranha nos nossos poros e nos consome despudoradamente.
Nunca fui dada a qualquer tipo de bairrismo, nem tão pouco a um sentimento de pertença a uma dada região. Acho simpático ser beirã, empolgo-me com os feitos heróicos de Viriato, mas o meu sentido de identidade beirã é demasiado etéreo, pois tal como Sócrates (o filósofo helénico!), sinto-me literalmente "cidadã do mundo". Posso ser de Lisboa e de Berlim (outra cidade que eu amo incondicionalmente), do Porto (outra paixão incomensurável) e de Zagreb. Um pouco como o grande e visionário António Variações que dizia ser de "algures entre Braga e Nova Iorque".
Porém, Lisboa também pode ser voraz, devorando-nos por completo. Lisboa não se compadece com a lentidão, a tranquilidade, tudo nela é vertiginoso, frenético, terminal. Embora se possa contrariar esse ritmo alucinante ao mergulhar na Lisboa antiga, nos seus bairros de gentes afáveis que estendem a roupa nos cordões e aí fica, indelével, a balançar todo o dia. Disso se fazem postais turísticos. Very typical, indeed!
Aí vivi quase uma década e não me recordo de um único dia sequer em que a beleza da cidade me fosse indiferente. Por mais cego que se ande, por mais afogado em preocupações, em stress quotidiano que se esteja, nunca se pode fechar os olhos a essa luz inefável que banha Lisboa e que muitos já tentaram explicar. Será do Tejo que todos os dias assume uma totalidade diferente? Não importa. É melhor não racionalizar o que se sente. Os argumentos e as explicações exaustivas retiram a beleza às coisas.
Depois de um dia intenso, daqueles que nos sugam a alma e a força anímica, apanhar o 15 que vai de Algés à Praça da Figueira é, de facto, o melhor antídoto. De preferência no Verão e sentir o vento a embalar-nos, deitar a cabeça para fora da janela e ter quase vontade de ser um daqueles miúdos rebeldes que vão à boleia do eléctrico, sem qualquer tipo de pudor. E deixarmo-nos ir, com imensos turistas em nosso redor, é certo, e trilhar percursos que já foram os de Pessoa.
Do que sinto mais falta em Lisboa é da atmosfera multiracial, multiétnica, num pluralismo deslumbrante. Adorava ir ao Centro Comercial do Martim Moniz, ao supermercado indiano comprar o verdadeiro caril, e sentir-me estranha. Em Lisboa, todos são forasteiros. Poucos são mesmo de lá. Estão de passagem. Fixam-se para sempre ou não. Um dia saem em busca de maior qualidade de vida. Não tenhamos dúvidas: em Lisboa não se vive, sobrevive-se. Excepto aqueles que têm muito. No resto do país, é possível viver, no verdadeiro sentido da palavra e dedicar-se a um sem número de tarefas, pois o dia dá quase a sensação de ser elástico. Em Lisboa, os dias sucedem-se à velocidade da luz, arrasadores.
Há dias assim. Em que se acorda submergido por uma maré de doce saudosismo e que, por mais que se olhe para a luz envolvente, não se vê "a" luz. De Lisboa. Obviamente.
Lisboa é como um daqueles amores que nunca se esquece e que, apesar de não ter resultado, temos sempre esperança de reatar. Porque estará sempre em primeiro.

segunda-feira, junho 19, 2006

Um pouco de cor, por favor!


Como a vida é ténue, sempre prestes a escapar-se-nos dos dedos. A cor prende-nos à vida e à capacidade de continuarmos a saber fruir o belo. "Até as coisas úteis devem ser belas". Sou apologista dos Gregos, sem dúvida alguma. O mundo de hoje já é demasiado sedento de funcionalidade, de produtividade e de objectivos. As pessoas ficam cegas e prisioneiras dessa espiral em que já não há qualquer fôlego para desfrutar da Beleza. Basta somente um minuto.

domingo, junho 18, 2006

À la mode? Démodé?

Há um fenómeno curioso que atravessa a língua portuguesa (e, muito provavelmente, todas as línguas, no seu todo) : a utilização de determinadas expressões ou palavras que, por inusitadas artes mágicas, estão na moda.
É um pouco o que sucede com as anedotas que circulam por aí, quase à velocidade da luz, diria, pois nunca se lhes conhece a origem, nem tão pouco o inventivo autor. À mínima "tragédia" (por vezes, sem aspas) que suceda, haverá sempre uma anedota a condizer. Nesse aspecto, o povo português é particularmente criativo, conseguindo transformar a matéria-prima da realidade, quase nunca sorridente, em potencial humorístico.
Em relação às expressões e palavras à la mode, podemos encontrar uma série de exemplos, sobretudo na linguagem dos órgãos de comunicação social (ou ficaria melhor dizer, os media, ou ainda na versão de Português do Brasil, a mídia?) e da política nacional.
Vejamos, então, alguns (por vezes, questionáveis) exemplares: as famosas "sinergias" que, basicamente, se enquadram em qualquer contexto, sendo "pau para toda a colher"; descobriu-se que, em vez de vermos, "visualizamos" ou "visionamos", o que é, de facto, uma grande vantagem, na óptica do utilizador; ficamos sem pinga de sangue com expressões do tipo "ao arrepio de" ou "em boa verdade" (esta última mais queirosiana); nunca perdemos o norte com a "conjuntura", a "contextualização" ou a "moldura" (influência da linguagem jurídica); ficamos algo desnorteados com o a necessidade de "balizar" e de encontrar uma "lógica" para tudo e mais alguma coisa, já para não falar da "sustentabilidade", que impõe sempre respeito ao mais desprevenido ouvinte e/ou leitor.
Numa outra frente, a língua portuguesa tem vindo a assimilar inúmeros anglicismos: upgrade, download, spread, downsizing, network, full board, etc. Hoje em dia, as empresas já não despedem, fazem downsizings, o que é, sem dúvida, muito simpático da parte destas. Por outro lado, a língua adapta termos (sobretudo) ingleses, convertendo-os em palavras, no mínimo, estranhas: as "facilidades" desportivas, o "ser suposto" qualquer coisa e tantos outros exemplos que provocam alguns arrepios a quem ainda acredite na língua de Camões.
No entanto, tal como acontece na moda, amanhã estas palavras já parecerão ridículas. Acredito que as "sinergias" não sobrevivam muito tempo.

sábado, junho 17, 2006

Solidão















Era o seu primeiro dia ali. A primeira noite, em boa verdade. Vários motivos, sempre dilacerantes e impronunciáveis, estiveram na origem de uma reviravolta tão drástica do destino. A infância fora completamente disfuncional, a ausência de afecto e de atenção e todo aquele rol de lengalengas que os psicólogos gostam de invocar. Dependem dos problemas e das disfunções desse exército silencioso de pessoas que padecem de um mal catalogável. Basta enumerar somente alguns sintomas.Para cada mal, seu nome. O maior de todos: não saber como ser feliz e constatar que não se tem o mínimo jeito para isso. A felicidade mais não é do que condição utópica.
Estava frio, nessa noite. Os carros sucediam-se, atropelavam-se e também os peões estavam impacientes, galgavam os passeios, num descontrolo incompreensível. Haveria alguma comemoração especial?As luzes dos faróis cegavam-no e ele não parava de acenar. Estava frenético, queria fazer tudo bem nessa noite, não disparatar nem tão pouco desbaratar essa réstia de coragem que ainda vivia dentro dele.
Estranha forma de vida. Tinha fome, sede, vontade de desaparecer e reaparecer numa casa confortável (não pedia uma mansão de milionário, um qualquer recanto sossegado já lhe bastava), ouvir a chuva lá fora e mergulhar nos cobertores que o afagavam docemente, esquecendo-se por completo do jornal, que lhe escorregava pelo colo. Sem se mexer, sentindo apenas o ruído da sua respiração tranquila. Não tinha de acenar, nem de dar indicações. Nem de correr como um louco pelas ruas íngremes e escuras daquela cidade impiedosa, como o são todas, aliás. Quantas vezes não tinha enterrado as mãos nos contentores cheios de comida putrefacta, sentindo as ásperas texturas da miséria, e, ao seu lado, as pessoas que se passeavam pelas ruas anónimas, viravam delicadamente o rosto, cabisbaixas.
Tantos pensamentos excessivos que o consumiam como uma doença terminal e que nada tinham a ver com a sua mão frenética, doentia, a acenar para os condutores que olhavam para ele sem o ver. Na boca, um cigarro apagado, mais por hábito do que por vício. Mais trágica era a consciência da realidade. Como desejava ser louco (chegando mesmo a invejá-los abertamente) e viver sem sentir o peso insustentável do pensamento.
A sua única companheira nessa noite (e em todas as que se seguiram) era a solidão das ruas. Nuas ou cheias de gente. Era indiferente. A solidão tinge-se sempre de preto e branco e deixa na boca o sabor amargo de um cigarro que nunca se acende.

quarta-feira, junho 14, 2006

De Amititia

Segundo Milan Kundera, os amigos funcionam como uma espécie de álbuns de memórias ambulantes. Com eles, nunca nos esquecemos da nossa identidade, da nossa essência e, mais importante, das recordações que fazem parte integrante da nossa vida e que transportamos de um lado para o outro, como um nécessaire de viagem.
É muito interessante verificar que qualquer conversa entre amigos resvala quase sempre para os tempos idos e para todo um leque infinito de peripécias, de episódios rocambolescos e únicos que os sela num pacto eterno. Por norma, a lei do riso é a dominante, tentando-se resgatar aquelas memórias mais risíveis e hilariantes que atenuam a seriedade da vida. O dia-a-dia profissional está nos antípodas de tudo isso, pois é demasiado sério, demasiado cinzento e pejado de formalismos, por vezes completamente ridículos (não fosse o nosso país o dos “doutores” e das abjectas atitudes reverenciais).
Quando procuramos um amigo, vamos em busca de nós mesmos, de tudo aquilo que fomos outrora – que talvez até se tenha perdido, entretanto, pelo caminho, mas que negamos a todo o custo – e que acreditamos religiosamente continuar a ser. Por isso é que não acredito na família como um todo coeso e inabalável, nem tão pouco nos questionáveis “laços de sangue”. Raras são as famílias funcionais que não estejam profundamente minadas por dentro. Uma família pode ser uma perfeita e confrangedora reunião de estranhos, em que se trocam palavras de ocasião, se disseca infinitamente sobre a inconstância do tempo (“já não há estações como antigamente”, asseguram-nos com a autoridade de um Antímio de Azevedo) e se trocam olhares frios de distância. Um amigo, pelo contrário, percorre as linhas das nossas mãos e conhece-nos ao pormenor, podendo antecipar reacções, evitando tocar naquele ponto fraco que nos fragiliza.
A perda de um amigo pode deixar sequelas inultrapassáveis. Uma perda que redunda em desilusão. Mas os amigos também se podem ir afastando, paulatinamente, os passos começam a distanciar-se, ainda que nunca se tenha coragem para admitir. Perdem-se referências, as memórias são enterradas num compartimento longínquo, até que a vontade de as recuperar esmorece por completo. E, por vezes, pode ser irreversível. O que é declaradamente triste.
A amizade é uma forma de amor. Todos os sintomas lá estão contidos (uns mais nobres do que outros): o ciúme, a posse, a dependência, o carinho, o orgulho, a admiração (não se pode ser amigo de alguém sem ter por ele uma tremenda admiração), o respeito, a ternura. É uma forma de amor, de facto, mas com uma diferença crucial: a amizade pensa-se e sente-se eterna. O Amor, nas imortais palavras do grande Vinicius de Moraes, “é eterno enquanto dura”…
Amo todos os meus amigos. Sem excepção.

sábado, junho 10, 2006

Os tecidos de que se entretecem as memórias

Por vezes, é difícil destrinçar entre realidade e ficção. Por vezes, somos levados numa torrente de improbabilidade e absurdo que se torna quase impossível traçar a fronteira entre o que é real e o que é sonhado.
Ontem assisti à peça "Alices" da autoria da escritora norte-americana Susan Sontag, no Teatro Viriato. O título original é algo distinto: "In the bed" e, de facto, toda a peça se desenrola na cama, onde Alice se refugiara do mundo envolvente, vítima de uma "saúde trágica".
Qual Frida Kahlo aprisionada num imenso vale de lençóis, por onde entram e saem inúmeros personagens, imaginados, imaginários, reais e de carne e osso. Alice nunca fora suficientemente destemida para conseguir viver e fruir a vida, para se deixar percorrer pelo riso, pela alegria, pelo espírito pragmático e bem terra à terra. Nunca saíra da cama. Nunca estivera em Roma, apenas em pensamento e, no seu imaginário, traçava o itinerário completo, ouvia a multitude de sons da eterna Roma, cruzava-se com a multidão, sentia na pele imaginária a luz que Roma derrama.
As visitas de Alice vão-se alternando no quarto. Umas entram pelos lençóis, interpelando Alice, desafiando-a a evadir-se, outras, tais como o pai (demasiado centrado sobre si próprio para se aperceber da existência frágil de Alice, que formulava os seus juízos a priori sem que ela proferisse uma só palavra) ou o irmão protector que é condescendente com ela e que, ao invés de ouvir os seus apelos desesperados, a trata por "coraçãozinho".
São várias as "Alices" que vivem dentro de Alice, numa infinidade de espelhos em confronto. Há a Alice criança e já deprimida e consumida pelo desejo de suicídio,a Alice brilhante, com uma inteligência fora do comum, a Alice insegura, a Alice com desejos de mulher. Como se ela se desdobrasse em imensos heterónimos, à boa maneira pessoana!
A concepção do espectáculo é soberba: construíu-se uma cama que ocupa o palco - onde os espectadores se encontram - e há um lençol imenso por onde pululam os personagens de "Alice". A representação, absolutamente irrepreensível!
A doença é um lugar estranho...

Aliterando...

Lentamente, ele lia as longas lengalengas, embalada pelo ulular lânguido. Maria magicava modos de mudar a melodia meiga que a mitigava. Nada nascia nessa noite neutra. Onde os ocasos ocorriam, ondulantes e oblíquos. Fitou-o fixamente e fugiu, fragilizada. Ainda assobiou um acorde assimétrico, atenta às andanças dos afectos. Parou por fim. Petrificada pela plenitude da paixão.

sexta-feira, junho 09, 2006

País (e Pais) de brandos costumes?














Há uma verdadeira onda de violência que percorre a sociedade portuguesa. Em silêncio. Mas que rebenta com a força de uma qualquer bomba impiedosa.
Essa violência existe nos lares de milhares e milhares de pessoas. Atente-se no número assustador de vítimas de violência doméstica. Em todo esse “cordão humano” – para usar uma imagem muito recorrente nos tempos “mundialescos” que se vivem em que só parece existir futebol e nada mais (pouco mudou desde o tempo dos famosos 3 éfes: “Fado, Futebol e Fátima”) – de Norte a Sul do país.
Carrascos com quem essas desesperadas vítimas partilham a mesma casa. Dormem, de facto, com o inimigo, amordaçadas por uma sociedade que prefere fazer de conta, que até se pode dar conta das marcas exteriores, não de riqueza, mas de profunda e declarada violência, mas que prefere não tomar uma atitude de condenação de tais actos brutais e hediondos. Fica em silêncio. Comme il faut.
A violência propaga-se também aos mais novos. Pais que espancam, sem dó nem piedade, que violam os próprios filhos, num crescendo de agressão sem limites. São inúmeros os rostos dos algozes, que não irão cessar de exercer a sua violência sobre mulheres, crianças, numa espiral alucinante de brutalidade e ódio. Que parece não acabar nunca.
A realidade está bem à vista de todos. Já se perdeu a conta de tantos casos de violência doméstica, de abuso de menores, de agressão verbal e física nos “pacatos” lares portugueses. A culpa morre, invariavelmente, solteira. Já se tornou um hábito perverso da nossa justiça injusta não condenar os carrascos, mas as vítimas.
Ontem recebi um e-mail que continha algumas "pérolas" dos pensadores de outrora a respeito das mulheres. Destaca-se o seguinte "rasgo de iluminação"extraído do Le Ménagier de Paris que consiste num tratado de conduta moral do séc. XIV:

"Quando um homem for repreendido em público por uma mulher, cabe-lhe o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver, envergonhada de sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado."

Ora aí está um texto com tremenda actualidade em Portugal. Com a diferença de que esses inúmeros socos são desferidos na quietude de um lar. As paredes emudecem.
“País de brandos costumes?”Pois então.

terça-feira, junho 06, 2006

As pessoas do Pessoa na nossa pessoa














Já tanto se escreveu e se dissertou acerca do poeta grande da língua portuguesa, Fernando Pessoa, que tudo parece já redundante, vazio de significado.
Tal como Pessoa, também nós somos uma multitude de personagens que nos habitam e que, no caos das suas contradições, habitam em nós, lutam por supremacia, dividindo-se pelos compartimentos recônditos do nosso ser. No dia-a-dia, são múltiplas as máscaras de que nos munimos para conseguir sobreviver num mundo subjugado pela lógica fria dos números.
Um pouco de Poesia logo pela manhã será, certamente, um bom antídoto contra a superficialidade que assola o mundo de hoje.
Deixo aqui um poema de Pessoa, artífice supremos das palavras. Perdoem-me as palavras envergonhadas que escrevinhei atrás. Ao pé das de Pessoa, mais não são do que risível pó...

Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis

Ai Timor...

Foi com tremenda perplexidade que assisti ao alucinante desenrolar dos acontecimentos mais recentes em Timor Leste.

Creio que quando rebentaram os tumultos e a agitação social, não se compreendia muito bem a génese de toda a discórdia. Nos meios de comunicação, denotava-se uma preocupação mais descritiva do que propriamente explicativa.

À medida que os confrontos iam adquirindo maiores proporções, surgiram então as explicações e muito se especulou sobre os eventuais motivos de um tamanho retrocesso. O governo de Timor Leste, consciente da insustentabilidade da situação, viu-se obrigado a apelar à ajuda internacional, com vista a garantir a segurança das populações, ou pelo menos a atenuar os efeitos do caos instalado.

Vemos imagens de jovens, assustadoramente jovens, a lançar pedras (numa espécie de estranha intifana), a queimar casas, enquanto as pessoas, desesperadas, desertam para as montanhas.

Há quem defenda que os interesses externos são os principais motores nefastos deste autêntico estado de sítio que se apoderou do país, varrendo-o sem dó nem piedade. O petróleo seria, desta feita, o grande móbil do crime. Por outro lado, há ainda quem aponte razões que se prendem com conflitos étnicos.

Porém, sejam quais forem os motivos, é verdadeiramente triste assistir a esta autêntica tragédia que assolou novamente Timor Leste, um país que, heroicamente, conquistou a sua auto-determinação e que, a passo e passo, foi renascendo das penosas cinzas de um passado recente. Foram inúmeras as vidas que pereceram em prol da causa da independência, da liberdade de afirmação enquanto país autónomo e detentor de uma identidade própria.

Ai Timor, como é triste o teu fado...

sexta-feira, junho 02, 2006

Crianças à margem
















Ontem comemorou-se o Dia Mundial da Criança. Ouvem-se gargalhadas sonoras e contagiantes, confettis e balões esvoaçam no ar, correrias desenfradas, abraços protectores, música alusiva aos verdes anos, crianças felizes um pouco por toda a parte.
Porém,a realidade não se tinge, infelizmente, de cor-de-rosa, à escala global.
Há exércitos de crianças despojadas de tudo, logo à nascença, que provavelmente nunca sentiram o calor reconfortante do colo materno, abrigo redentor à prova de toda e qualquer adversidade.
Há crianças que não vivem, sobrevivem, de acordo com a mais dura das leis e que se confrontam com um quotidiano de miséria, de carência, num universo absurdo e destroçado.
Há crianças que nunca receberam um presente, nem tão pouco sentiram esse frenesim da expectativa aquando do Natal. As renas do Pai Natal da Coca-Cola não chegam até lá. Detêm-se nos países abastados, em que as crianças, mergulhadas numa imensidão de brinquedos, Play Stations e outros, chegam até a olhar com enfado para um presente que lhes desagrade.
Há crianças que em vez de ouvirem o "Abram alas para o Noddi" ou as "Músicas da Carochinha", só ouvem metralhadoras, choros infindáveis de mães subnutridas, mas sempre mães, em profundo desespero por não terem os meios para conceder o sopro vital aos seus filhos que reclamam alimento.
Há crianças que nunca viram um balão, que nunca fizeram voar um papagaio de papel, que nunca viram o mar, que nunca correram para os braços dos pais, ao longo do vasto areal.
Não podemos esquecer estas crianças. Elas são, efectivamente, "o melhor do mundo". Todas, sem excepção.

Estreia hoje um filme All the invisible children, realizado por uma série de realizadores de renome ( que vêem na arte do cinema algo mais que fazer filmes acéfalos e "pipoqueiros")- Emir Kusturica, Spike Lee, John Woo, Ridley Scott, por exemplo - que conta com o alto patrocínio da Unicef e do Programa Alimentar Mundial e que retrata a dura e crua realidade dessas mesmas crianças marginalizadas, em países como a Sérvia, a China, os Estados Unidos, entre outros.

O filme é constituído pelos seguintes filmes/documentários:
Tanza de Mehdi Charef (África)
Blue Gipsy de Emir Kusturica (Sérvia)
Jesus Children of America de Spike Lee (EUA)
Bilu e João de Katia Lund (Brasil)
Jonathan de Jordan Scott e Ridley Scott (Reino Unido)
Ciro de Stefano Veneruso (Itália)
Song, Song & Little Cat de John Woo (China)

É claro que ninguém fala deste filme, mas nem só de "Da Vincis" se faz o cinema...
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