De Amititia

É muito interessante verificar que qualquer conversa entre amigos resvala quase sempre para os tempos idos e para todo um leque infinito de peripécias, de episódios rocambolescos e únicos que os sela num pacto eterno. Por norma, a lei do riso é a dominante, tentando-se resgatar aquelas memórias mais risíveis e hilariantes que atenuam a seriedade da vida. O dia-a-dia profissional está nos antípodas de tudo isso, pois é demasiado sério, demasiado cinzento e pejado de formalismos, por vezes completamente ridículos (não fosse o nosso país o dos “doutores” e das abjectas atitudes reverenciais).
Quando procuramos um amigo, vamos em busca de nós mesmos, de tudo aquilo que fomos outrora – que talvez até se tenha perdido, entretanto, pelo caminho, mas que negamos a todo o custo – e que acreditamos religiosamente continuar a ser. Por isso é que não acredito na família como um todo coeso e inabalável, nem tão pouco nos questionáveis “laços de sangue”. Raras são as famílias funcionais que não estejam profundamente minadas por dentro. Uma família pode ser uma perfeita e confrangedora reunião de estranhos, em que se trocam palavras de ocasião, se disseca infinitamente sobre a inconstância do tempo (“já não há estações como antigamente”, asseguram-nos com a autoridade de um Antímio de Azevedo) e se trocam olhares frios de distância. Um amigo, pelo contrário, percorre as linhas das nossas mãos e conhece-nos ao pormenor, podendo antecipar reacções, evitando tocar naquele ponto fraco que nos fragiliza.
A perda de um amigo pode deixar sequelas inultrapassáveis. Uma perda que redunda em desilusão. Mas os amigos também se podem ir afastando, paulatinamente, os passos começam a distanciar-se, ainda que nunca se tenha coragem para admitir. Perdem-se referências, as memórias são enterradas num compartimento longínquo, até que a vontade de as recuperar esmorece por completo. E, por vezes, pode ser irreversível. O que é declaradamente triste.
A amizade é uma forma de amor. Todos os sintomas lá estão contidos (uns mais nobres do que outros): o ciúme, a posse, a dependência, o carinho, o orgulho, a admiração (não se pode ser amigo de alguém sem ter por ele uma tremenda admiração), o respeito, a ternura. É uma forma de amor, de facto, mas com uma diferença crucial: a amizade pensa-se e sente-se eterna. O Amor, nas imortais palavras do grande Vinicius de Moraes, “é eterno enquanto dura”…
Amo todos os meus amigos. Sem excepção.
Comentários
Viva la amistad!!!
Beijinhos