quarta-feira, junho 14, 2006

De Amititia

Segundo Milan Kundera, os amigos funcionam como uma espécie de álbuns de memórias ambulantes. Com eles, nunca nos esquecemos da nossa identidade, da nossa essência e, mais importante, das recordações que fazem parte integrante da nossa vida e que transportamos de um lado para o outro, como um nécessaire de viagem.
É muito interessante verificar que qualquer conversa entre amigos resvala quase sempre para os tempos idos e para todo um leque infinito de peripécias, de episódios rocambolescos e únicos que os sela num pacto eterno. Por norma, a lei do riso é a dominante, tentando-se resgatar aquelas memórias mais risíveis e hilariantes que atenuam a seriedade da vida. O dia-a-dia profissional está nos antípodas de tudo isso, pois é demasiado sério, demasiado cinzento e pejado de formalismos, por vezes completamente ridículos (não fosse o nosso país o dos “doutores” e das abjectas atitudes reverenciais).
Quando procuramos um amigo, vamos em busca de nós mesmos, de tudo aquilo que fomos outrora – que talvez até se tenha perdido, entretanto, pelo caminho, mas que negamos a todo o custo – e que acreditamos religiosamente continuar a ser. Por isso é que não acredito na família como um todo coeso e inabalável, nem tão pouco nos questionáveis “laços de sangue”. Raras são as famílias funcionais que não estejam profundamente minadas por dentro. Uma família pode ser uma perfeita e confrangedora reunião de estranhos, em que se trocam palavras de ocasião, se disseca infinitamente sobre a inconstância do tempo (“já não há estações como antigamente”, asseguram-nos com a autoridade de um Antímio de Azevedo) e se trocam olhares frios de distância. Um amigo, pelo contrário, percorre as linhas das nossas mãos e conhece-nos ao pormenor, podendo antecipar reacções, evitando tocar naquele ponto fraco que nos fragiliza.
A perda de um amigo pode deixar sequelas inultrapassáveis. Uma perda que redunda em desilusão. Mas os amigos também se podem ir afastando, paulatinamente, os passos começam a distanciar-se, ainda que nunca se tenha coragem para admitir. Perdem-se referências, as memórias são enterradas num compartimento longínquo, até que a vontade de as recuperar esmorece por completo. E, por vezes, pode ser irreversível. O que é declaradamente triste.
A amizade é uma forma de amor. Todos os sintomas lá estão contidos (uns mais nobres do que outros): o ciúme, a posse, a dependência, o carinho, o orgulho, a admiração (não se pode ser amigo de alguém sem ter por ele uma tremenda admiração), o respeito, a ternura. É uma forma de amor, de facto, mas com uma diferença crucial: a amizade pensa-se e sente-se eterna. O Amor, nas imortais palavras do grande Vinicius de Moraes, “é eterno enquanto dura”…
Amo todos os meus amigos. Sem excepção.

3 comentários:

L disse...

Talvez seja por isso que grandes momentos se vivam com futuraos grandes amigos.

rouxinol de Bernardim disse...

A eternidade é um "ai que mal soa"!

ritanery disse...

A amizade é com toda a certeza (para mim claro!!) o maior princípio, valor, que o ser humano alguma vez já possuiu. É ela que desencadeia tudo na vida!!Até mesmo o amor!E nós tantas vezes que a ignoramos...que passamos por cima, enfeitiçados com não sei o quê, não sei onde...
Viva la amistad!!!
Beijinhos

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