sábado, maio 17, 2008

Sei de um fado



Com o último álbum de Camané (para mim, o maior fadista português) - Sempre de mim - como banda sonora deste texto, não pude deixar de sentir uma forte comoção que veio à superfície pela terna poesia das letras, pela crueza da voz quente e pela nostalgia que, invariavelmente, salpica qualquer fado.
Nacionalismos à parte, o fado espelha, na perfeição, a essência da identidade portuguesa: a ânsia de uma felicidade que partiu e que já não se poderá reaver; a saudade infinita e lírica de memórias passadas, de instantes de fugaz contentamento, de um sofrimento que paira sobre nós como um fantasma que insiste em permanecer no baú empoeirado; da nostalgia que languidamente nos consome e em cuja angústia sentimos um estranho prazer e da saudade, a eterna saudade, do que foi e já não volta a ser.
Há, de facto, uma nova geração de fadistas que enveredam por registos ora mais inovadores, introduzindo instrumentos diferentes e sonoridades ousadas, ora mais ortodoxos, seguindo o trilho do fado mais conservador. Por mais diversas que sejam as roupagens, o fado será sempre a expressão eloquente de um estado de alma muito peculiar e de uma tendência muito portuguesa e não menos masoquista para uma certa auto-comiseração, como se a dor fosse mesmo inescapável.
Há dias, na viagem de regresso de Lisboa, ouvia a conversa de umas senhoras no autocarro que vieram, literalmente, o caminho todo a falar de doenças, desgraças e afins. Essa é, lamentavelmente, uma característica muito portuguesa. As pessoas nunca dizem que estão bem-dispostas, que o dia está a ser fantástico. "Vão andando como Deus quer" e nunca tomam as rédeas do próprio destino, nem sequer tentam ver a realidade com optimismo e espírito positivo.
A saudade, o fado, o messianismo, a nostalgia, enfim, todos estes vectores ajudam a moldar a identidade nacional, mesmo que habitem os confins subterrâneos do nosso sub-consciente colectivo.
Se assim não fosse, não estaria a ouvir fado e a sentir um prazer indescritível em toda esta poesia que por aqui anda à solta. Não sou sueca, ora bolas!:)

5 comentários:

Rita Nery disse...

Quem me dera ser sueca...

Beijinhos

Rita Nery

Dalaiama disse...

Quando cá vim no sábado ouvi três ou quatro vezes seguidas o Camané postado a cantar e fiquei tão absorto que não deixei qualquer comentário. O Camané é fixe, e gosto muito da pinta dele, parece ser um tipo mesmo porreiro, não é? Tem assim uma dignidade sofrida, um olhar que se mantém de pé, uma certa inflexão resistente, não sei. Parece o tipo de pessoa com quem saberia bem encontrarmo-nos a conversar sobre a vida. Parece bom amigo, pessoa leal. Valorizo a integridade. Depois o vídeo, todo a preto e branco, está muitíssimo bem escolhido, Ana. Apresenta o sossego das noites em que a lua parou. Muito bonito. Fiquei hipnotizado. Obrigado.
:-)

Dalaiama disse...

E, é claro, escusado será dizer que tu Ana escreves muitíssimo bem. Eu não sou especialista em literatura, mas gosto de apreciar quem escreve bem. Tu parece que tens dentro de ti as palavras todas prontas, bem arrumadinhas em gavetas e prateleiras livres de pó, então pensas em alguma coisa e vais lá buscá-las com grande agilidade, ficam todas encaixadas cheias de coerência, tudo ricamente explicado, palavras exactas, uma comunicação cristalina. Que bonito!
:-))))

Ana Cota disse...

É, de facto, avassalador o poder da voz de Camané, uma verdadeira torrente de força interior! A poesia salta-lhe dos lábios e enfeitiça-nos por completo.
E para quem ama Lisboa, ele personifica a voz da cidade, das ruelas de Alfama, da magia das noites sombrias, das vielas mais recônditas, em suma, de uma beleza indescritível que só se sente em Lisboa e que se crava em nós para sempre!
E tudo é mais belo a preto e branco:)

Achei curiosa a tua observação em relação à minha escrita e ao facto de ter tudo em ordenado por "gavetinhas" e, apesar de nunca o ter verbalizado, sempre senti essa obsessão de organização, antes de escrever um texto. Tudo tem de fazer sentido. Não escrevo um texto sem pensar primeiro no título e só a partir daí é que me lanço à aventura das palavras!...

Obrigada pela tua simpatia e, sobretudo, pelos teus comentários sempre perspicazes, profundos e plenos de sensibilidade e de lirismo!:)

Um abraço,
Ana

Rita Nery disse...

Engraçado...estava a ler os comentários, o teu Mary, onde dizes a certa altura que pensas antes de escrever, tudo tem de fazer sentido, ter princípio meio e fim, e deparo-me com o oposto da minha escrita. Nunca penso antes e normalmente acabo por escrever o que nem me dei conta de ter pensado, e não são poucas as vezes em que me desvio do tema inicial, se é que existe um. Mais do que ler pessoas que sabem escrever e bem, como é o teu caso, delicio-me, e isto porque não tenho muita paciência para ler, e isto vindo de quem escreve, e escreve, e escreve...é lindo! (tipo Tininho, lembraste? E ria-se, e ria-se, ria-se...eheheheh!!!!Um cão que se ri), delicio-me, não, não me perdi em apreciar as diferentes maneiras que as pessoas encontram para dizer precisamente a mesma coisa. São nestes pequenos pormenores que encontro a alma das pessoas, que é no fundo o meu objectivo último.

Beijinhasssssss mil e quinhentas e mil

Rita Nery

P.S.- mas continuo a querer ser sueca:)

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