Encontros e Despedidas

O tempo passa e as pessoas vão-se afastando aos poucos, tentando, todavia, não provocar uma ferida muito óbvia. Com a discrição que se impõe. As vidas seguem rumos diferentes, como se tornou hábito dizer, e nós fingimos acreditar nessa irrevogável premissa. É mais simples mentir a nós próprios do que dar de caras com a verdade. E, por vezes, as pessoas afastam-se mesmo. As memórias que outrora carregavam no regaço perdem-se pelo caminho, esvaem-se, transformam-se nem sei bem em quê.
A distância geográfica não passa de uma desculpa confortável. E as pessoas vão-se fechando cada vez mais no seu casulo, sobre si mesmas, isoladas do mundo envolvente. É a solidão dos tempos modernos. Para a debelar, as pessoas consomem com frenesim ou então enviam sms, porque falar está mesmo fora de questão. É demasiado íntimo, vincula-nos a um grau insuportável. Trocam-se palavras de ocasião, tenta-se fazer um resumo dos acontecimentos principais (por vezes, não há nada de estrondoso para se contar, mas mesmo assim tentamos usar todo o nosso poder criativo). Todos somos estrangeiros perante os outros e nós mesmos
também.
Sinto infinitas saudades desses tempos em que achávamos que as relações eram eternas e os laços inquebrantáveis, em que não precisávamos de telemóveis, em que dávamos um abraço profundo e sentíamos o calor do outro, a sua humanidade. Hoje em dia, tudo é fugaz, virtual, feito de evasões sucessivas.
E tudo isto porque lá fora se ouvem os risos límpidos das crianças a brincar, numa inocência iniciática da qual já não restam quaisquer vestígios.
… Apesar de cá dentro de mim, numa daquelas salinhas recônditas, lá no fundinho de mim, continuar a pular, a rir, a brincar e a dar as mãos a todos os meus amigos que viverão sempre em mim, nessa salinha longínqua …
Comentários
O melhor mesmo é pensar em quem estará ao virar da próxima esquina, prestes a trazer mudança e que como nós caminha, ignorante do seu destino. Aufregend, was? :-)
»