Estilhaçar silêncios

Há dias, cruzei-me com um texto - que, ao mesmo tempo, se converteu num autêntico manifesto - que, literalmente, me atingiu como um raio certeiro.

A artista plástica espanhola Paula Bonet publicou no seu Instagram uma foto que intitulou "auto-retrato no elevador com embrião com coração parado", acompanhada de um texto pungente sobre a necessidade de se quebrar o silêncio em relação ao aborto espontâneo, realidade que sucede com demasiada frequência, por esse mundo fora, e que não deverá ser um não-assunto.

Infelizmente, este verdadeiro flagelo acontece a um verdadeiro exército de mulheres, nas mais diversas faixas etárias e, consequentemente, a tantos e tantos homens, aos companheiros que partilham com elas a dor lancinante da perda que se irá chorar para sempre. E que, pura e simplesmente, não se entende.

Mas talvez esta questão careça mesmo de entendimento, de esclarecimento, de debate. É, em primeira instância, um problema de saúde pública que deveria ser investigado de forma exaustiva e séria. O facto de acontecer a cerca de 60% das mulheres, na primeira gestação, deveria merecer uma leitura atenta por parte da comunidade médica.

E, a par de todo este esforço de esclarecimento, a necessidade de estilhaçar silêncios, de não transformar esta questão num tema-tabu, numa espécie de "don't mention the war", pois o aprofundar do silêncio é directamente proporcional à intensificação da injusta culpabilização da mulher. Porque esta é uma dor muito feminina. É nos nossos corpos que ocorre esta verdadeira hecatombe nuclear. Por maior que seja o efeito analgésico do abraço dos nossos companheiros e das suas palavras de conforto e de aconchego, é dentro de nós que se esvai a génese de um sonho de uma vida e de uma vida. É isto, em toda a sua crueza, nada poética.

O dia seguinte é sempre o mais doloroso. Com as mãos cheias de nada se deita mãos à obra, nessa epopeia de reconstruir a própria vida e de nos reerguermos das cinzas. Aos poucos, vamos apanhando esses cacos, espalhados pelo chão, acreditando em finais felizes ou em novas oportunidades solares. Mas parecerá sempre que aconteceu ontem. E nas épocas festivas de partilha familiar, é tanto mais doloroso. E haverá sempre mulheres e amigas a engravidar, e gravidezes que dão certo e que terminam como todas deveriam terminar. Com um bebé a entrar, a plenos pulmões, na aventura da vida.

A partilha de experiências, de palavras, de sentimentos é, para além de benéfica, urgente. Na sociedade contemporânea e no mundo das redes sociais, estamos sempre felizes, somos sempre lindos, jovens e sorridentes, e não somos sequer assombrados por fantasmas incómodos. Só que a vida é exactamente o oposto desse mundo virtual.

Até o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, fez um comunicado em que anunciou ao mundo que ele e a mulher sofreram 3 abortos espontâneos, até conseguirem ser pais. Testemunhos como este são muito importantes para que quem passou por esse infortúnio não se sinta sozinho no mundo, na sua dor, no árduo processo de renascer, a passos tímidos, de uma catástrofe interior.

São textos como os de Paula Bonet que põem o mundo feminino a discutir e no cerne do debate. Porque, infelizmente, estas coisas não acontecem só aos outros. E ao ler essas palavras, sentimos o alento de quem se vê ao espelho de um qualquer elevador. E que também já provou do mel e do fel desse sonho que se adiou.


Comentários

Mariana Matos disse…
Um beijo muito grande no teu ❤ E acredita, mereces muito e tudo!!! 😘😘😘

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