sexta-feira, dezembro 02, 2016

E, de repente, é Natal outra vez!

E, de ŕepente, já é Natal outra vez. E mais um ano à beira do fim. Mais um ciclo que se encerra e, pelo caminho, colheram-se alegrias várias, mas também desilusões. No entanto, por cada desencanto, há uma esperança que se renova e insiste em não esmorecer. É desta matéria que se faz a vida. Tão bela como esta magia primordial, a bênção de sentir, de respirar e de contar os Natais que se sucedem. 

Do humor com amor

Talvez seja o riso a única forma de lidar com o absurdo da existência e com a consciência da própria finitude do ser humano.Muita tinta já correu sobre este tema e tão certo como dois lados de uma medalha, o humor e a dor andam sempre enleados. Inseparáveis na sua razão de ser.

Sempre procurei o humor, o riso desenfreado, a gargalhada medonha como um antídoto contra a adversidade ou mesmo como um remédio que deve ser administrado com zelo e minúcia, sem descurar a dosagem adequada.Nas fases menos solares, foi o mais eficaz dos medicamentos, um instrumento decisivo para combater a tristeza ou a melancolia. Respondendo com gargalhadas às lágrimas que queriam soltar-se.

O que mais me fascina no humor é o encanto do inesperado, uma associação de ideias inusitada, um jogo de palavras ou de imagens genial que despertam aquela convulsão verdadeiramente orgásmica do riso.

Seinfeld estará sempre no Olimpo da comédia. O quotidiano era a sua matéria-prima primordial e a total universalidade dos seus temas faziam daquela sucessão de episódios um delicioso vício. Porque tal como o chocolate, o riso é completamente viciante. Uma vez lá dentro, fica-se refém e sedento de nova dose.

O humor britânico, que teve na genialidade fulgurante de Monty Python, o seu expoente máximo, prima pela aguda autoironia e pela caricaturização de referências culturais, políticas e ideológicas do mundo ocidental. Porque não poderá haver humor sem formação e sem informação.

Porque não há humor sem dor, porque não há riso sem lágrima, há que procurar os "comic relieves" desta vida com a voracidade com que se degusta o mais irresistível dos chocolates!

segunda-feira, novembro 21, 2016

Deu Trump(a)



A vitória de um discurso fundado no ódio, na aversão ao outro, na xenofobia, numa visão musculada do poder. Trump corporiza e ressalta o que o ser humano tem de pior. Obama era luz, esperança, carisma e uma espécie de fé na humanidade. Trump é mesmo o lado negro da Força. E a prova de que a democracia pode produzir o lixo mais aviltante.

domingo, novembro 20, 2016

London calling

Numa só cidade, cabe o mundo inteiro.

Dawn to dusk

Adágio final

Nunca estamos realmente preparados para o fim. Da vida. Das relações de afecto. Das amizades.
O mais sombrio em todo este processo é lidar com um vazio gritante, com a ausência, com a partida. E ter de reformular o quotidiano assente nessa ausência, nessa falta.
Por mais que saibamos que, na vida, os impostos e a morte são as únicas certezas que temos, há algo de vagamente pueril que habita em nós e que continua a acreditar numa qualquer imortalidade. Ainda que à medida que os anos passam, deixemos de ser um pouco menos imortais e a consciência da finitude se torne mais evidente.
Quando, inesperadamente, parte "um dos bons", há uma inconsolável sensação de injustiça e de incredulidade.
Por isso é tanto mais urgente saber que um dia pode albergar toda uma vida. Se tão subitamente os sonhos se esfumam, se tudo é etéreo e intangível, há que continuar a trilhar o caminho.
Enquanto lançamos sorrisos a quem nos observa lá em cima.

domingo, abril 12, 2015

A dor dos outros

Passou uma semana desde a autêntica tragédia que se abateu sobre o Quénia, traduzindo-se num brutal assassínio de 148 estudantes universitários, num inqualificável acto de barbárie e de intolerância religiosa.

O que mais me espantou, para além do choque inevitável tratando-se de uma monstruosidade sem limites, foi o fraco eco que este acontecimento teve no mundo e nos media ocidentais.

Se o ataque à redacção do jornal satírico francês Charlie Hebdo fez soar um coro uníssono de protestos, uma comovente onda de indignação e de repúdio sem precedentes, a tragédia do Quénia foi noticiada com uma brevidade e um poder de síntese e de indiferença verdadeiramente assustadores. Uma tal barbárie que teve como vítimas centenas de inocentes não foi suficientemente trágica, aparentemente, para que Merkel, Hollande ou Obama dessem as mãos, em jeito de tributo simbólico.

Valerão menos as vidas de quenianos, de africanos, daqueles que habitam o terceiro mundo? É imensamente triste a sina de todos aqueles que nascem e (sobre)vivem nos pontos mais inóspitos do planeta, no que à questão dos Direitos Humanos diz respeito.

Perante esta tragédia inominável, o mundo ocidental deveria ter erguido a sua voz e tomado uma posição. Tão clara e inequívoca como quando todas as pessoas eram Charlie. Demasiado centrado no seu umbigo civilizacional, o Ocidente virou a cara e os media ocidentais passaram fugazes imagens de uma tragédia. Lá longe. Parece que foi no Quénia.

domingo, março 15, 2015

Primaverando

Quando chega, por fim, a Primavera, hesito sempre se lhe reconheço maior beleza do que ao Outono, resplandescente na sua decadência de múltiplas cores.
A Primavera inicia. O Outono conclui.
A Primavera regenera. O Outono apazigua.
Gosto mesmo de estações intermédias, deste doce meio-termo com que a Natureza, mãe generosa, nos vai brindando.
Sem os extremos do Verão e do Inverno que nos testam os limites, num desafio constante e por vezes corrosivo.
A Primavera contém em si uma promessa, uma esperança, um poema que se desvenda em cada flor.
Não será por acaso que contamos primaveras...

domingo, janeiro 11, 2015

The imitation game (2014)


Em plena II Grande Guerra, um matemático britânico, Alan Turing, propõe criar uma máquina pioneira, com o objectivo de descodificar o, aparentemente inquebrantável, código nazi Enigma. Esta máquina, concebida pelo génio de Turing, foi, na verdade, o primeiro computador da História que salvou a vida a 14 milhões de pessoas.

Como todos os génios, Turing era absolutamente disfuncional no plano das relações interpessoais, na expressão de afectos e de uma certa "normalidade" quotidiana. Benedict Cumberbatch demonstra, assim, todo o seu génio interpretativo, ao dar voz e corpo a este matemático notável que só, postumamente, em 2013, seria reconhecido pelo serviço prestado ao Reino Unido, na derrota do pesadelo nazi.

Para além da disfuncionalidade do génio, Alan Turing era homossexual, o que lhe valeu uma imediata perseguição, tendo como dura consequência a castração química, pois era essa, à época, a "cura" institucionalizada para a homossexualidade. Perpassa pelo filme o profundo sofrimento que é inerente à diferença, seja no domínio da inteligência, seja no plano da sexualidade. Uma figura como Allan Turing que pôs a sua genialidade matemática ao serviço da Humanidade, descodificando o que parecia inviolável, foi, ironicamente, maltratada pelos seus. Apenas por ser diferente. Tão somente.

Um excelente mote para reflexão. Um filme enorme. Benedict Cumberbatch de cortar a respiração, acompanhado por uma encantadora Keira Knightley à altura.

"Sometimes it is the people who no one imagines anything of who do the things that no one can imagine."

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Nous sommes Charlie


O início de um novo ano encerra em si um inevitável desejo de mudança, de renovação, uma crença na evolução, uma esperança num mundo melhor (por mais lugar-comum que pareça).

No entanto, este ano de 2015 amanheceu negro, demasiadamente negro. O assassínio a sangue frio, nuns estonteantes 5 minutos de barbárie, dos jornalistas do jornal satírico francês Charlie Hebdo pôs o mundo em suspenso, a chorar a morte de 12 pessoas, entre jornalistas e polícias, naquele que foi um bárbaro atentado a França, à democracia e aos valores basilares do mundo civilizado.

Antes de mais, uma ressalva: é importante não tomar o todo pela parte, considerando que estes grupos minoritários, mas não menos perigosos, são o espelho da religião muçulmana. É essa a ideia que eles tentam passar. Porém, todas as generalizações são nefastas e viciam um debate sério sobre este fenómeno tão complexo, sem solução à vista. A comunidade muçulmana, como afirmou ontem Sheikh David Munir, só pode sentir uma enorme vergonha, pelo facto de verdadeiros lunáticos perpetrarem tais actos bárbaros em nome da fé e da religião muçulmanas.

O mais assustador é constatar que esta ameaça não tem rosto, está latente e perversamente enraizada nas sociedades actuais. É uma ameaça que se pulverizou e que pode detonar a qualquer instante, em qualquer lugar, onde haja democracia e liberdade de expressão e de pensamento.

A questão da liberdade de expressão é, sem dúvida, crucial e não será a violência a calar a voz do pensamento. Mas nada me parece mais revoltante do que o total desrespeito pelo valor basilar da vida humana que estes lunáticos corporizam. Não é a fé que professam. Antes a violência pela violência.

Mas o mundo civilizado que acredita e que defende acerrimamente a liberdade de pensamento e de expressão e a democracia não se deverá deixar intimidar, erguendo-se contra a barbárie, o fundamentalismo e a intolerância. Hoje e sempre, nous sommes Charlie.
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