Sexta-feira, Outubro 02, 2009

passos mudos


Ouvia-se apenas o eco dos seus passos frenéticos, a desbravar as ruas, com sofreguidão, como se navegasse num mar revolto, tumultuoso. E a tempestade adensava-se cada vez mais. Pensamentos contraditórios, risíveis, desesperados até, cruzavam-se numa mente já exausta de tanto pensar. O pensamento, o maior dos fardos. Mas não deixava de embarcar nesta corrida alucinada, em busca de uma réstia de verdade. Os passos sempre frenéticos, sempre estridentes. Tick, tack, tick, tack, o tempo corria-lhe nos pés e a urgência do encontro impunha que essa viagem não desejada se realizasse, no matter what...Pensava na fragilidade de todas as coisas. Como tudo podia desmoronar de um momento para o outro, um frágil castelo de cartas a esvoaçar perante um ténue sopro...E o pensamento sempre a pairar sobre o caminho, essa maldição inevitável...Sorria, apesar do sofrimento. Acreditava, apesar do desespero. Virou a esquina, o sol inundou-lhe o rosto aturdido, a chuva cessara, da tempestade nada restara senão a magia de duas mãos que se entrelaçam...

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Conduzo, logo existo


Já é suficientemente embaraçoso ter já passado a temível barreira dos 30 (quando ainda nos sentimos completamente teenagers), mas mais embaraçoso ainda será não ter carta de condução, sendo que esta é, nos tempos que correm, um requisito tão vital como respirar ou dominar o Inglês e as novas tecnologias.
A minha primeira tentativa de entrada no mundo dos cidadão automobilizados deu-se em mil nove e noventa e oito (há 11 anos, pasme-se!). Curiosamente, adorava as aulas de condução e até levava amigas (vulgo, mártires) para assistirem à demonstração da minha perícia automobilística, completamente convicta de que iria superar essa prova, sem qualquer questão de maior.
No entanto, o exame de condução afigurou-se um desastre, fruto do meu estado de nervos, da falta de tacto do examinador e acabei mesmo por chumbar. Como nunca lidei propriamente bem com o falhanço, decidi que o mundo das 4 rodas não era para mim e que iria investir em bons sapatos que me levariam aos 4 cantos do mundo.
(A conta de conserto de calçado ao fim do mês é colossal, admito!)
Ao contar mil vezes esta histórias a todos aqueles que, incrédulos perante o meu carácter autónomo, acabava sempre por dar exemplos de figuras públicas (inevitavelmente intelectuais) que também não tinham carta de condução, o que, de certa forma, me conferia uma certa aura de excentricidade.
Nunca fiz depender a minha autonomia de 4 pneus, é um facto! Sempre calcorrei todos os trilhos e mais alguns sem me sentir num estado de menoridade em relação a qualquer outro cidadão "encartado".
Volvidos 11 anos, decidi superar este meu trauma e este meu indisfarçável falhanço de outros tempos (mas não menos embaraçoso) e agora estou a tirar a carta. Como ainda estou na fase da teoria, tudo me parece demasiado improvável e até longínquo. Sei que vou estremecer quando meter primeira, mas espero conseguir vencer este fantasma e esta inquestionável limitação.
Se a coisa correr mal outra vez, terei de me concentrar, com todo o afinco, na próxima colecção de calçado Outono/Inverno!...E esquecer o alcatrão.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

O sabor da indiferença


Nos últimos tempos, tenho andado tão embrenhada nas minhas trapilhices que, infelizmente, me tenho afastado, não de forma voluntária ou premeditada, deste pechisbeque, onde, de quando em vez, deposito alguns pensamentos e reflexões que gosto de partilhar.
Desta vez, foram as eleições europeias de domingo último que me trouxeram de volta a esta plataforma virtual, por acreditar que há algumas realidades importantes (diria mesmo vitais, sem qualquer ironia do termo escolhido!) que importa discutir.
Não deixa de ser hilariante que em dia de eleições, todos os partidos, ou quase todos, clamem vitória e nunca assumam derrotas, por vezes inequívocas e que saltam à vista de todos. Discursos inflamados e galvanizadores, plateias amestradas que batem palminhas em sincronia e que proferem ferozes gritos de vitória. Independentemente dos processos eleitorais, as manifestações de júbilo e de auto-promoção são, inevitavelmente, sempre as mesmas, o que leva a um enorme cansaço por parte dos cidadãos que - ainda - acreditam que o seu voto, o seu manifesto poderão fazer a diferença.

Um pouco por toda a Europa, e Portugal não foi excepção, a grande vitoriosa foi mesmo a abstenção e o completo divórcio entre os cidadãos e o Parlamento Europeu ou, em última instância, a Europa, essa entidade ainda demasiado longínqua e etérea que, lamentavelmente,ainda não mobiliza as grandes massas de eleitores.
É certo que em tempos de crise económica, os povos se centram mais no seu próprio umbigo e nas questões internas, afastando-se de uma lógica mais global, demasiado distante para parecer sequer consistente.
No entanto, os índices de abstenção tendem irremediavelmente a aumentar, cabendo a culpa unica e exclusivamente às classes governantes que orientam o debate para questiúnculas menores e episódios que poderiam ser cómicos se não fossem tão preocupantes, utilizando o poder, sempre inebriante, para satisfazer interesses pessoais e desvirtuando por completo a essência da política, tal como Aristóteles a entendia.
Nestas eleições, em concreto, assistiu-se à vitória da abstenção e ao reforço da oposição, penalizando seriamente os dois partidos que habitualmente alternam entre si as cadeiras do poder. Com esta consolidação da oposição, os eleitores que, tal como eu, decidiram votar, quiseram expressar uma profunda insatisfação com o estado de coisas actual e com a quase indiferenciação entre um ou outro partido que poderão assumir os destinos do país, na certeza de que o poder acaba sempre por corromper os espíritos moralmente mais elevados.
Haverá excepções, certamente, que teimam, contudo, em não se vislumbrar...

"O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade." Aristóteles

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Chocolate high

Acho esta música absolutamente deliciosa!
Faz,sem dúvida, jus ao título!

Domingo, Abril 19, 2009

A viagem do elefante


O protagonista chama-se Salomão e vai embarcar numa longa e, certamente, sinuosa viagem, repleta de peripécias, entre Lisboa e Viena.
Nela se desenha o retrato de um Portugal seiscentista que em nada diverge do actual, perpassado pela fina lupa da ironia e do humor corrosivo de José Saramago.
O monarca D. João III ofereceu Salomão como presente ao arquiduque Maximiliano de Áustria, decisão que marcará indelevelmente o destino deste paquiderme que parecia votado a ser objecto exótico, alvo dos olhares curiosos da corte real e do povo de Lisboa, embrenhado em sujidade e melancolia.
Na senda de Salomão, o elefante, e de Subhro, o seu tratador indiano e inseparável compagnon de route, percorremos os trilhos da complexa identidade lusa, da aventura europeia, e do abismo civilizacional que sempre nos distanciou dessa mesma Europa desenvolvida.
Ainda agora embarquei nesta viagem e mal posso esperar por vislumbrar o destino final.
Deixo aqui um pedaço delicioso da prosa de Saramago:

Este homem não pode ir para viena em semelhante figura, coberto de andrajos, ordeno que lhe façam dois fatos, um para o trabalho, para quando tiver que andar em cima do elefante, e outro de representação social para não fazer má figura na corte austríaca, sem luxo, mas digno do país que o manda lá, Assim se fará, meu senhor, E, a propósito, como se chama ele. Despachou-se um pajem a sabê-lo, e a resposta, transmitida pelo secretário, deu mais ou menos o seguinte, Subhro. Subro, repetiu o rei, que diabo de nome é esse, Com agá, meu Senhor, pelo menos foi o que ele disse, aclarou o secretário, Devíamos ter-lhe chamado Joaquim quando chegou a Portugal, resmungou o rei.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Une rencontre


...com Milan Kundera. Já foi (finalmente!) publicada a versão francesa da nova obra de Milan Kundera, Une rencontre, que reúne ensaios dispersos deste autor checo. Milan Kundera é um escritor maior da cultura ocidental, cujas obras arrebatadores têm o poder imenso de marcar a existência de quem as lê. Procuro freneticamente, nos escaparates das livrarias,novos lançamentos deste autor que para mim será sempre absolutamente icónico. Mergulhando na poesia da sua escrita, tomamos consciência das verdades que iluminam a essência humana. Para quando o Nobel?

A ASA ainda não anunciou a data de publicação da versão portuguesa.

Sábado, Março 21, 2009

Pelo direito à diferença


O realizador americano Gus Van Sant já nos habituara a filmes de grande fôlego, como por exemplo "Elephant", "Paranoid Park" ou "Good Will Hunting", pontuados por preocupações manifestamente sociais e políticas que revolvem as entranhas e que, na senda do melhor cinema de autor, levam o público a colocar uma série de questões pertinentes.
O filme "Milk" não é, pois, excepção, neste contexto da obra do realizador. Construído como um documentário, e, consequentemente, como uma peça importante para o entendimento da história da luta pelos direitos civis por parte da comunidade homossexual norte-americana, este filme acompanha o percurso de Harvey Milk, o primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público nos E.U.A.
A luta incansável de Milk desenrolou-se, em primeiro lugar, num bairro de S. Francisco para logo se alastrar a todo o país que começou a despertar para a urgência de um tratamento igualitário em relação à comunidade homossexual, fortemente ostracizada por uma sociedade puritana e conservadora.
É interessante verificar que, em 1978 (o ano em que eu nasci), a luta acérrima pelos direitos civis por parte das minorias já fervilhava nos Estados Unidos, questão que só agora se começa a discutir com consistência em Portugal!...
Harvey Milk é o símbolo da determinação férrea de um cidadão que se via, acima de tudo, como um activista (e não como um político), reclamando somente o direito a um tratamento igualitário, no plano dos direitos civis. O seu destino foi trágico (como, infelizmente, o de todos os homens à frente do seu tempo), mas o seu contributo tremendamente importante lançou as bases para a construção de uma sociedade mais aberta, mais plural que abraça todos os seus cidadãos, por igual, independentemente das tendências sexuais de cada um.
Uma nota para a representação soberba de Sean Penn que encontrou o registo certo para esta interpretação, sem nunca incorrer nas imagens esteriotipadas que se associam à comunidade gay. O Óscar para Melhor Actor foi, sem sombra de dúvida, merecido. Sean Penn não pára de supreender, demonstrando uma flexibilidade tremenda ao encarnar personagens completamente díspares, como, por exemplo, nos filmes "I am Sam", "Mystic River" ou "Dead Men Walking". Dele só se espera a perfeição, plenamente conseguida neste marcante Harvey Milk.