domingo, abril 12, 2015

A dor dos outros

Passou uma semana desde a autêntica tragédia que se abateu sobre o Quénia, traduzindo-se num brutal assassínio de 148 estudantes universitários, num inqualificável acto de barbárie e de intolerância religiosa.

O que mais me espantou, para além do choque inevitável tratando-se de uma monstruosidade sem limites, foi o fraco eco que este acontecimento teve no mundo e nos media ocidentais.

Se o ataque à redacção do jornal satírico francês Charlie Hebdo fez soar um coro uníssono de protestos, uma comovente onda de indignação e de repúdio sem precedentes, a tragédia do Quénia foi noticiada com uma brevidade e um poder de síntese e de indiferença verdadeiramente assustadores. Uma tal barbárie que teve como vítimas centenas de inocentes não foi suficientemente trágica, aparentemente, para que Merkel, Hollande ou Obama dessem as mãos, em jeito de tributo simbólico.

Valerão menos as vidas de quenianos, de africanos, daqueles que habitam o terceiro mundo? É imensamente triste a sina de todos aqueles que nascem e (sobre)vivem nos pontos mais inóspitos do planeta, no que à questão dos Direitos Humanos diz respeito.

Perante esta tragédia inominável, o mundo ocidental deveria ter erguido a sua voz e tomado uma posição. Tão clara e inequívoca como quando todas as pessoas eram Charlie. Demasiado centrado no seu umbigo civilizacional, o Ocidente virou a cara e os media ocidentais passaram fugazes imagens de uma tragédia. Lá longe. Parece que foi no Quénia.

domingo, março 15, 2015

Primaverando

Quando chega, por fim, a Primavera, hesito sempre se lhe reconheço maior beleza do que ao Outono, resplandescente na sua decadência de múltiplas cores.
A Primavera inicia. O Outono conclui.
A Primavera regenera. O Outono apazigua.
Gosto mesmo de estações intermédias, deste doce meio-termo com que a Natureza, mãe generosa, nos vai brindando.
Sem os extremos do Verão e do Inverno que nos testam os limites, num desafio constante e por vezes corrosivo.
A Primavera contém em si uma promessa, uma esperança, um poema que se desvenda em cada flor.
Não será por acaso que contamos primaveras...

domingo, janeiro 11, 2015

The imitation game (2014)


Em plena II Grande Guerra, um matemático britânico, Alan Turing, propõe criar uma máquina pioneira, com o objectivo de descodificar o, aparentemente inquebrantável, código nazi Enigma. Esta máquina, concebida pelo génio de Turing, foi, na verdade, o primeiro computador da História que salvou a vida a 14 milhões de pessoas.

Como todos os génios, Turing era absolutamente disfuncional no plano das relações interpessoais, na expressão de afectos e de uma certa "normalidade" quotidiana. Benedict Cumberbatch demonstra, assim, todo o seu génio interpretativo, ao dar voz e corpo a este matemático notável que só, postumamente, em 2013, seria reconhecido pelo serviço prestado ao Reino Unido, na derrota do pesadelo nazi.

Para além da disfuncionalidade do génio, Alan Turing era homossexual, o que lhe valeu uma imediata perseguição, tendo como dura consequência a castração química, pois era essa, à época, a "cura" institucionalizada para a homossexualidade. Perpassa pelo filme o profundo sofrimento que é inerente à diferença, seja no domínio da inteligência, seja no plano da sexualidade. Uma figura como Allan Turing que pôs a sua genialidade matemática ao serviço da Humanidade, descodificando o que parecia inviolável, foi, ironicamente, maltratada pelos seus. Apenas por ser diferente. Tão somente.

Um excelente mote para reflexão. Um filme enorme. Benedict Cumberbatch de cortar a respiração, acompanhado por uma encantadora Keira Knightley à altura.

"Sometimes it is the people who no one imagines anything of who do the things that no one can imagine."

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Nous sommes Charlie


O início de um novo ano encerra em si um inevitável desejo de mudança, de renovação, uma crença na evolução, uma esperança num mundo melhor (por mais lugar-comum que pareça).

No entanto, este ano de 2015 amanheceu negro, demasiadamente negro. O assassínio a sangue frio, nuns estonteantes 5 minutos de barbárie, dos jornalistas do jornal satírico francês Charlie Hebdo pôs o mundo em suspenso, a chorar a morte de 12 pessoas, entre jornalistas e polícias, naquele que foi um bárbaro atentado a França, à democracia e aos valores basilares do mundo civilizado.

Antes de mais, uma ressalva: é importante não tomar o todo pela parte, considerando que estes grupos minoritários, mas não menos perigosos, são o espelho da religião muçulmana. É essa a ideia que eles tentam passar. Porém, todas as generalizações são nefastas e viciam um debate sério sobre este fenómeno tão complexo, sem solução à vista. A comunidade muçulmana, como afirmou ontem Sheikh David Munir, só pode sentir uma enorme vergonha, pelo facto de verdadeiros lunáticos perpetrarem tais actos bárbaros em nome da fé e da religião muçulmanas.

O mais assustador é constatar que esta ameaça não tem rosto, está latente e perversamente enraizada nas sociedades actuais. É uma ameaça que se pulverizou e que pode detonar a qualquer instante, em qualquer lugar, onde haja democracia e liberdade de expressão e de pensamento.

A questão da liberdade de expressão é, sem dúvida, crucial e não será a violência a calar a voz do pensamento. Mas nada me parece mais revoltante do que o total desrespeito pelo valor basilar da vida humana que estes lunáticos corporizam. Não é a fé que professam. Antes a violência pela violência.

Mas o mundo civilizado que acredita e que defende acerrimamente a liberdade de pensamento e de expressão e a democracia não se deverá deixar intimidar, erguendo-se contra a barbárie, o fundamentalismo e a intolerância. Hoje e sempre, nous sommes Charlie.

sábado, setembro 06, 2014

Blasé

O que nos comove é sempre o que nos move. Nesta expressão vive um inconformismo contido, mas que um dia acabará por vir à superfície. Há neste olhar pretensamente distante uma natureza irrequieta que teima em não aceitar os ditames da maioria e que rejubila na diferença. É uma pintura que me observa e me desvenda.

Obra do acervo do Museu do Caramulo

domingo, agosto 24, 2014

Silly world






















Muita tinta tem corrido e muito se tem discorrido sobre o mundo pré- é pós-Facebook. Afinal, o que mudou nesta imensa sociedade global com a disseminação alucinante desta rede social que parece querer perdurar durante muitos anos?

Antes de mais, é tarefa árdua sugerir uma análise crítica quando nos encontramos, também nós, os supostos críticos e questionáveis pensadores da modernidade, dentro dessa imensa nação em que se converteu o Facebook.

Um dado é certo:se Freud regressasse à era contemporânea, iria encontrar uma sociedade com elevados - senão mesmo doentios - níveis de narcisismo, numa verdadeira vertigem de auto-deslumbramento. Mais importante do que a palavra, a reflexão, o primado do pensamento, ainda e sempre a imagem, o parecer em detrimento do ser. Este poderia ser palco de discussões profícuas, da democracia e da democratização, da liberdade de expressão e do pensamento livre. Mas a "selfie" da praxe afigura-se sempre mais tentadora do que a Faixa de Gaza. 

O Facebook veio roubar tempo à leitura, à palavra escrita, à análise detalhada. Tudo se tornou demasiado etéreo, demasiado vazio, demasiado irrelevante. 

Ainda que seja pelas melhores e mais meritórias causas, atropelam-se baldes com gelo que caem sobre corpos que gritam e o mundo global assiste ao espectáculo de uma estranha democratização. Não sei se é reflexo da "silly season" ou de um mundo cada vez mais imbecil e acrítico.

quarta-feira, maio 14, 2014

Muito barulho por nada

Já todos sabemos que subjaz ao discurso político das classes governantes uma profunda aura moralizante. Com a entrada da troika em Portugal, os governantes logo se apressaram a rotular os sacrifícios de necessárias punições, num país que, levianamente, vivia "acima das suas possibilidades" e que se deixou deslumbrar pelo admirável mundo novo do crédito fácil. Ou seja, o país iria percorrer uma árdua via sacra e, de sacrifício em sacrifício, iria alcançar uma espécie de salvação final.

Eis senão quando, a troika começa a acenar com o seu impoluto lenço branco e agora o discurso político vigente já se virou para uma espécie de restauração da independência e da soberania, libertando-se, heroicamente, do jugo opressor da "troika" que, de uma forma bem esquizofrénica, ora é solução, ora é problema, ora é altruísta, ora é usurária.

É muito interessante analisar as nuances que a retórica política tem assumido ao longo destes três anos. De intervenção passou a ajuda e de ajuda a ajustamento. E assim se molda a semântica, ao sabor dos acontecimentos e, sobretudo, dos interesses políticos que sejam mais prementes no momento. E como agora estamos perto das eleições europeias, já se começam a soltar patéticos foguetes de contentamento.

Mas também sabemos que nada do que parece é realmente. Esta "ajuda" implica um preço elevadíssimo a pagar e haverá muitos que lucram com tal acto de generosidade. Como se costuma dizer, "não há almoços grátis" e a completa ambiguidade de critérios tem sido uma constante. Por que motivo houve uma intervenção efectiva em Portugal e na Grécia e não houve em Espanha, conhecida que era a gravíssima crise em que o nosso país irmão estava mergulhado? Quem são os grandes e reais beneficiários de todo este processo? A verdade nua e crua é bem mais dolorosa do que à partida parece.

O mais importante, do meu ponto de vista, é colocar a seguinte questão: volvidos 3 árduos anos, como está Portugal? Não vejo qual o motivo de tamanha euforia, nem tão pouco qualquer razão para comemorar. Estamos mais pobres; o nosso poder de compra diminuiu brutalmente; os nossos salários são cada vez mais magros; pende sobre nós uma carga fiscal sem precedentes; o Estado social ameaça converter-se numa miragem; o desemprego não pára de crescer; a pobreza aumenta de forma verdadeiramente assustadora; os reformados vêem as suas pensões cada vez mais reduzidas; trabalhamos mais e ganhamos muito menos; a exploração laboral é a nota dominante e os jovens qualificados fazem as malas, rumo a um futuro mais solar.

No dia 17 de Maio, continuaremos em crise. E tão distantes desse país remoto chamado esperança...
Follow my blog with Bloglovin